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Teologia › 08/04/2020

Sobre o Inferno

Sobre o termo Inferno, o dicionário dos símbolos, o define “como campo do domínio do diabo, deve-se distinguir inteiramente do reino dos mortos (limbo, xeol) das antigas ideias sobre o hades. É símbolo das trevas contrapondo-se à luz do céu. Assim como a luz significa a vida e com isso Deus, também o inferno significa ser privado de Deus e da vida”[1]. A origem do termo é latina: infernum, que significa as profundezas, aquilo que é inferior[2].

Em uma busca pela fundamentação bíblia sobre o inferno, vamos encontrar nos escritos bíblicos, tanto no AT quanto no NT, algumas passagens que indicam algum tipo de punição ou de condenação. Nos escritos bíblicos encontramos alguns textos que nos ajudam a compreender melhor o tema da origem do pensamento sobre o inferno. No NT se encontram a maior parte das reflexões sobre este assunto[3]. No AT encontramos uma compreensão bem conhecida do destino comum de todos os que morriam, era o sheol, também conhecido como mansão dos mortos, onde existia trevas, silêncio, pó, esquecimento, e a languidez (cf. Jó 10,21s; 17,16; 14,21; Dt 32,22; Sl 94,17; Is 14,10)[4]. Em Dn 12, 2s se afirma que tanto o justo quanto o ímpio ressuscitam, sendo o justo para a vida eterna e os ímpios para a desonra[5]. “O sheol aparece, então, ai, como mansão infernal destinada aos ímpios para castigo eterno[6]”.

Segundo McKenzie, a palavra inferno ou geena no NT é “mencionada até sete vezes em Mt, três vezes em Mc, uma vez em Lc e uma vez em Tg. É um lugar de fogo (Mt 5,22; 18,9; Tg 3,6). O fogo é inextinguível (Mt 9,43). É um abismo no qual as pessoas são lançadas (Mt 5,29s; Mc 9,45.47; Lc 12,5)[7]”.

O inferno é descrito de forma naturalista na visão de alguns Padres da Igreja, por exemplo: S. Agostinho e S. Gregório descreve o inferno como o fogo real que Deus puniria os pecadores, este fogo era de natureza eterna. Já Clemente de Alexandria duvidava da eternidade do inferno. Para Orígenes as torturas sofridas no inferno eram provocadas pela própria consciência do pecador[8].

George Brantl afirma que “os que morrem em grave pecado, deliberadamente se afastam de Deus como inimigos e despenderão a eternidade no Inferno: um lugar ou estado de separação eterna de Deus e de purificação eterna. No sofrimento dos condenados, a tradição católica mantém que terrível é a insaciável fome de Deus, que atinge seu auge no Inferno, uma fome que os danados conhecerão como a mais completa expressão das suas necessidades naturais e cuja eterna insatisfação eles próprios originaram[9]”.

Segundo o pensamento de Agostinho, ir para o inferno é uma condenação, um castigo para os pecadores. “Estar afastado do reino de Deus, estar cortado da vida divina, não recebe a múltipla doçura de Deus… é uma punição tão atroz que nenhum dos tormentos que conhecemos pode ser comparado a esse[10]”. O ir para o inferno é um sinal de que o ser humano é incapaz para o amor. “o discurso do inferno é a advertência de que o ser humano pode tornar-se totalmente incapaz para o amor, cria para si inclusive um mundo, no qual viver em comunhão significa somente tortura. Visto, porém, que o ser humano está destinado inteiramente ao amor, essa situação significa o maior sofrimento imaginável”[11].

A reflexão sobre o inferno apresenta algumas dificuldades para o homem de hoje, pois para os que não creem é motivo de escândalo e desprezo e para os que creem é motivo de ceticismo e repulsa[12]. Para o Magistério o inferno não é uma criação divina e que Deus, de modo algum, destina alguém ao inferno, pois fomos criados para sermos cidadãos do Céu, que foi nos dados por Jesus Cristo[13]. “O Inferno é uma possibilidade real da própria liberdade humana… a auto exclusão se constitui num auto-juizo[14]”. Portanto o ir ou não para o inferno depende de nossas escolhas, de nosso livre arbítrio, pois Deus nos deu a liberdade de ama-lo ou não. “Não é Deus quem condena, mas o Ser humano é quem se condena, rejeitando Deus”[15].

Por: Padre Leandro Couto

Referência

BLANK, Renold Johann. Escatologia da pessoa: Vida, morte e ressurreição. São Paulo: Paulus, 2000

BOLLINI, Cláudio. Céu e inferno: O que significam hoje?. São Paulo: Paulinas, 1996.

BRANTL, George. Catolicismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1964.

BRINGEMER, Maria Clara; LIBÂNIO, João B. Escatologia Cristão, Coleção Teologia e Libertação. Petrópolis: Editora Vozes, 1985.

HEINZ-MOHR, Gerd. Dicionário dos Símbolos: Imagens e sinais da arte cristã. São Paulo: Paulus, 1994.

MCKENZIE, John L. “inferno” in, dicionário Bíblico. 9 ed. São Paulo: Paulus, 2005

NOCKE, Franz-Josef. “Escatologia” in SCHNEIDER, Theodor(org.). Manual de Dogmatica II. Petrópolis- RJ: Editora Vozes, 2012

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[1] Gerd HEINZ-MOHR, “Inferno”, in Dicionário dos Símbolos: Imagens e sinais da arte cristã, São Paulo 1994, p. 184.

[2] Cf. disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Inferno

[3] Anotações em sala de aula.

[4] João B. Libânio; Maria Clara L. BINGEMER, Escatologia Cristã, Serie II A Libertação na História, Petrópolis 1985, p. 254.

[5] Cf. Idem, Ibidem.

[6] Idem, Ibidem.

[7] John L. MCKENZIE, “inferno” in, dicionário Bíblico, São Paulo, 2005, p. 377

[8] Cf. Renold J. BLANK, op. cit., p. 258.

[9] George BRANTL, Catolicismo, Biblioteca de Cultura Religiosa, Rio de Janeiro, 1964, p. 202

[10] S. Agostinho, Enchiridion, de fide, espe, et Charitate, c.112, epud George BRANTL, Catolicismo, Biblioteca de Cultura Religiosa, Rio de Janeiro, 1964, p. 202

[11] Franz-Josef NOCKE, “Escatologia” in Theodor SCHNEIDER (org.) Manual de Dogmatica II, Petropolis, 2012, p. 419.

[12] Claudio BOLLINI, Céu e Inferno: O que significam hoje? São Paulo 1996, p. 95

[13] Idem, p. 99.

[14] Idem, p. 99.

[15] Renold J. BLANK, Escatologia da Pessoa: Vida, morte e ressurreição, São Paulo, 2000, p. 251.

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