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Formação › 18/06/2020

Relação Homem e Deus: Acesso à realidade de Deus, Parte I

Qual é a relação entre o home e Deus? Como o homem tem acesso a realidade de Deus? VAGAGGINI afirma que “as relações entre Deus e o homem são baseadas na lei da objetividade. O caminho pelo qual Ele desce ao homem e o homem vai a Ele foi determinado em muitos dos seus particulares para o homem pela livre vontade de Deus… A livre vontade de Deus nós a conhecemos pela revelação. É esta que nos faz conhecer até que ponto ele quis ligar a vida religiosa do indivíduo à sua inserção e submissão a uma determinada sociedade”[1]. Deus nos chama e somos livres para aceitar este chamado.

Para entendermos melhor nossa reflexão sobre a auto revelação de Deus por meio da criação São Paulo na Epístola aos romanos (Cf. Rm 2,14-16) fala-nos sobre a revelação da vontade divina, de sua lei e do conhecimento de Deus, ou seja, revelação que está no interior do próprio homem[2]. A partir desta reflexão de São Paulo podemos falar de uma revelação de Deus por meio da manifestação de sua vontade contida na Lei, que está escrita no coração do homem. A auto revelação de Deus criador no homem criatura, ou seja, a revelação de Deus e de suas vontades podem ser conhecidas pela consciência do homem, pois é por meio da consciência do homem que seus atos são orientados[3].

Devemos considerar que a revelação não é apenas Deus se manifestando pessoalmente, mas é ao mesmo tempo conteúdo objetivo oferecido aos crentes, Deus se apresenta como “absolutamente novo que é oferecido”, algo que não existe ainda em nós, que não é possível descobrir a partir de nós, mas pode ser conhecida por força que vem do exterior ao nosso encontro[4]. Segundo FISICHELLA precisamos recuperar “o horizonte da ‘auto-revelação’ de Deus e de sua liberdade ao querer se revelar”[5]. Deus se auto revelou a nós, por sua livre vontade.

Temos duas vertentes da novidade da revelação: a do conteúdo e a da compreensão. Em relação ao conteúdo temos o fato de um Deus que se auto comunica ao homem. Por exemplo temos a aliança de Deus com o povo de Israel, “o Povo com o Qual Iahweh fala”, a comunicação de Deus tem como objetivo a salvação de seu povo[6].

Em relação a compreensão, refere-se a compreensão da revelação, ou seja, toca na questão da linguagem que exprime a fé. A linguagem que exprime a fé antecede a reflexão teológica, pois ela antecede as reflexões[7]. “Estamos no âmbito da ‘fundação’ da linguagem na Palavra de Deus que foi revelada. Ela comporta a compreensão da escritura e da tradição como o momento normativo e fundador da expressividade da fé”[8]. A partir da revelação podemos afirmar que “Deus é amor” (Cf. 1Jo 4,16). Podemos perceber na história da salvação que a forma da linguagem da revelação é a linguagem do amor. Se a linguagem da revelação não for a linguagem do amor, não seria a linguagem de Deus, pois a linguagem de Deus, exprime a verdade[9].

Deus se auto revela ao criar o homem e todas as coisas, pois, se o homem e criado por Deus então já existe em seu coração um desejo de ir ao encontro de seu criador. Deus sendo o criador atrai para si o homem[10]. A constituição Pastoral Gaudium et spes também afirma que “a razão principal da dignidade humana consiste na vocação do homem para comunhão com Deus. Já desde sua origem o homem é convidado para o diálogo com Deus. Pois o homem, só existe, é somente porque Deus o criou e isto por amor. Por amor é sempre conservado. E não vive plenamente segundo a verdade, a não ser que conheça livremente aquele amor e se entregue ao seu criador”[11].

Como já vimos anteriormente toda criação foi criada pela palavra, ou seja, toda a ação de Deus tem uma estrutura verbal. Encontramos a origem de toda palavra em Deus, portanto, se a Sagrada Escritura diz que o homem é a imagem e semelhança de Deus, ela afirma que o homem é palavra numa extensão mais ampla que as outras criaturas[12]. Ao me criar Deus chama-me pelo nome que é exclamação amorosa e apelo à minha pessoa. “Em virtude de eu ser criado, sou chamado pessoalmente por Deus. Toda minha existência como pessoa é por um lado dom, presente e, ao mesmo tempo, missão que consiste em responder a este apelo amoroso e criador”[13].

A minha relação com o Tu é o fundamento e o início da mais profunda relação com o Tu[14]. “O apelo dadivoso e criador de Deus. É de certo modo a relação ontológica com o tu, a relação existencial, original. E ela é relação pessoal, pois se concretiza no apelo de amor. Deus me chama com seu tu, a fim de que também eu possa chamá-lo de Tu… Meu ser pessoal é ser-resposta, ou melhor, eu me torno cada vez mais pessoa, à medida que correspondo ao apelo desta palavra com minha resposta de amor”[15].

Continua…

 

Padre Leandro Paulo do Couto

Comunidade Canção Nova

 

Leia Também:

 

7º – A ação reveladora de Deus na História da Salvação, Parte II

 

6º – A ação reveladora de Deus na História da Salvação, Parte I

 

5º – A Criação como origem permanente da Salvação, Pate II

 

4º – A Criação como origem permanente da Salvação, Pate I

 

3º – Homem e Mulher os Criou (Gn 1,27)

 

2º – Manifestação do amor de Deus por meio da criação

 

1º – Liturgia: Mistério Pascal na história da salvação

 

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[1] Cipriano VAGAGGINI, O Sentido Teológico da Liturgia, 2009, p. 250.

[2] Cf. MyS I/1, p. 193.

[3] Cf. MyS I/1, p. 193.

[4] Cf. Rino FISICHELLA, op. cit., p. 86.

[5] Ibidem.

[6] Cf. Rino FISICHELLA, op. cit, p 87.

[7] Cf. Rino FISICHELLA, op. cit, p. 88.

[8] Ibidem.

[9] Cf. Idem, p. 89.

[10] Cf. CAT n. 27.

[11] GS 19.

[12] Cf. MyS II/3, p. 80.

[13] Ibidem.

[14] Cf. Ibidem.

[15] MyS II/3, p. 80-81.

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