Frases de Santos

Formação › 15/10/2020

O Sacerdote e o Mundo!

 

O SACERDOTE E O MUNDO

Por: Padre Francisco Faus

 

  1. No dia da Ascensão, Cristo “coloca” os Apóstolos (os primeiros “instrumentos vivos de Cristo sacerdote”) em frente do mundo, e os “lança” a ele: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado […] Os discípulos partiram e pregaram por toda a parte. O Senhor cooperava com eles e confirmava a sua palavra com os milagres que a acompanhavam” (Mc 16, 15-16.20).

Esta é, sobretudo, a vocação dos sacerdotes seculares. Não é vocação de monge enclausurado (vocação necessária e admirável, mas diversa da nossa). Por isso, é importante que vejamos o mundo−que é o nosso “campo” − como Cristo o vê, com os olhos de Cristo.

  1. No Evangelho, é claro que Cristo vê o mundo de quatro maneiras(4 ângulos).

 

A) O mundo como obra de Deus, amado por Deus:

E viu que era bom…; e era muito bom (Gen. 1,31 ss)…  Falando com Nicodemos: Jo 3, 16-17: Tanto amou Deus o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna…

Deus ama o mundo, a “obra das suas mãos”, ama o homem, criado à sua imagem e semelhança, feito por Deus e “para Deus”, para a vida eterna. Ama-o em si, e ama-o com um amor redentor, que quer livrá-lo do “único mal”, a separação de Deus, o pecado.

B) O mundo como realidade dominada pelo pecado, pelo “príncipe deste mundo”, e, por isso, hostil a Deus, “inimigo”

Justamente porque o mal entrou no mundo com o pecado (quebrando a harmonia dos homens com Deus, entre si  e com a Criação: (cf. CCE nn 399 ss), Deus nos diz que o “mundo” não é bom e não deve ser amado: “Não ameis o mundo, nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai” (I Jo 2,15). A que se refere São João? De que “mundo” está falando? A resposta vem a seguir, no mesmo texto da sua Primeira Carta: Porque tudo o que há no mundo − a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida −, não procede do Pai, mas do mundo (I Jo 2, 16).

Está claro que a Sagrada Escritura, ao falar aqui de “mundo”, se refere à grande massa da humanidade não resgatada pela graça de Deus, não atingida pela eficácia da Redenção, da graça (e faz parte dessa mas são batizado que vive habitualmente no pecado e favorece os comportamentos e as estruturas de pecado). Portanto, oque há no mundo, tomado nessa acepção, é o predomínio do pecado e das consequências do pecado (original e pessoal): é o egoísmo e os desejos egoístas (concupiscências),que dominam e marcam as mentalidades, a vida social, os espetáculos, os meios de comunicação, o ambiente. É, parafraseando S. João, a idolatria da carne: ter o prazer − comodismo, gula, sexo, bem-estar material, etc. – como ideal e meta; é a idolatria do que brilha aos olhos humanos: ambições, domínio, triunfo humano, dinheiro, posses; e é a soberba, o orgulho: querer ser mais do que os outros, ser o centro, ser o “deus” que escolhe o bem e o mal.

Isto é o “que há no mundo” (I Jo 2,16). Não custa nada reconhecer que é uma descrição do que predomina na atual sociedade descristianizada, paganizada, pagã.

– Pois bem, a respeito desse mundo, Cristo nos diz claramente o seguinte:

Se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia (Jo 15,18-19).

Em verdade vos digo, haveis de lamentar e chorar, mas o mundo se há de alegrar (…), mas a vossa tristeza se há de transformar em alegria (Jo 16,20).

–  (Pai,)…o mundo os odeia, porque eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os preserves do mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo (Jo 17, 14-16).

Acerca do mundo, neste sentido, Cristo nos diz que “não somos” dele, não sintonizamos com ele, não somos dos “seus”(cfr. Jo 15,18): o que o mundo valoriza e ama é diferente e muitas vezes o contrário do que nós valorizamos e amamos; igualmente é diferente o que alegra ao mundo e a nós. O antagonismo, em muitos casos, é tal, que o espírito cristão, os critérios cristãos, a conduta cristã, o ambiente cristão, choca-se com o mundo a tal ponto que lhe desperta o “ódio” e até um ódio mortal (ao qual Cristo se refere várias vezes como algo inevitável).

C) O mundo é a “massa deperdita” (massa de perdição) que Cristo vem “salvar”: ama-o com amor misericordioso, como Salvador (“Vim buscar o que estava perdido”)

Porque eu vim…para salvar o mundo (Jo 12,47) Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele (Jo 3, 17) Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1,29) Quando relemos a Oração sacerdotal de Jesus, pouco antes da Paixão, e em geral, as últimas palavras de Cristo, vemos que Cristo insiste em que este mundo, que não conheceu−que não conhece −o Pai (Jo 17,25), tem necessidade de saber que Eu amo o Pai(Jo 14, 31); é necessário que o mundo saiba que tu me enviaste, e que tu os amaste [aos que crerem] como me amaste a mim(Jo 17,23)….Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo…Como tu me enviaste ao mundo, também eu os envio ao mundo (Jo 17, 16.18); Pai…,que eles (discípulos) estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste(Jo 17, 21).

Não é o mundo que salva a Igreja, é a Igreja que salva o mundo. Isso, que é óbvio, para quem olha para Cristo, ficou obscurecido durante muitos anos, e achou-se que a Igreja seria salva pelas “ciências humanas’, que seriam as novas “fontes da revelação da verdade salvadora”(a sociologia, a psicologia e a psiquiatria, a economia, a nova pedagogia, etc, etc.).  Durante anos críticos e confusos (da década de 60 até meados da década de 80), esta inversão de valores prevaleceu em muitos ambientes eclesiásticos, e fez um mal muito grande, que só agora começa a ser reparado.

D) O mundo não é a realidade única, definitiva, última: é somente a “penúltima”:

Algo que a pregação e a catequese sempre tiveram em primeiro plano, durante mil e novecentos e sessenta anos… a faz uns 40 anos que silenciou quase que completamente…

A realidade última é avida eterna… Isso não se pode esquecer nunca…= Cristo deixa claro que Eu dou a vida eterna (Jo 10, 28)… Na hora da Paixão … da Redenção…: Jo 17, 1-2:  …. Pai, é chegada a hora. Glorifica teu Filho, para que teu Filho te glorifique a ti; e para que,pelo poder que lhe conferiste sobre toda a criatura, ele dê a vida eterna a todos os que lhe entregaste […] Pai, quero que onde eu estou estejam também comigo aqueles que me deste, para que vejam a minha glória que me concedeste, porque me amaste antes da criação do mundo (Jo 17, 1-2. 24).

  1. Essas premissas, nos permitem ver muito claro como um sacerdote deve ver o mundo.

Essa “clareza” é especialmente necessária para os novos sacerdotes, porque durante mais de 30 anos, muitos presbíteros tiveram a infelicidade de ser desorientados e −muitas vezes sem culpa, pela pressão do ambiente − não viram o mundo como Cristo o vê.

Falou-se muito de que o Concílio Vaticano II abriu a Igreja ao mundo, debruçou a Igreja sobre o mundo. Muitos acabaram entendendo isto de modo falso: pensaram erradamente que a Igreja, com a sua doutrina, tinha-se enclausurado, fechado, e perdia o mundo moderno que andava por outros rumos. A solução parecia, então, “entrar” nos rumos do mundo, que assim marcaria a pauta, a “verdade”, a solução seria “mundanizar-se”, “secularizar-se”. Esses acabaram −como dizia Jacques Maritain − caindo de joelhos diante do mundo. À mundanização uniu-se, inevitavelmente, a adoção dos “critérios” do mundo:  ́A norma suprema do mundo − diz Maritain − é o êxito. a norma suprema da Igreja é a verdade”.

[Livro ”A coragem de ser católico”: dioceses “eficientes” segundo as normas da administração de empresas; pastoral de marketing: ser bem acolhido, estar “sintonizado” com a modernidade, ser “atualizado”; ser padres que pensam como pensa o homem pagão da rua, e a tv e os jornais… Substituiu-se a espiritualidade pela psicologia; o confessor pelo psicólogo ou a orientadora educacional; descurou-se a vida interior e a santidade e as cabeças e os corações foram sendo atulhados e embriagadas de planos e pedagogias pastorais, de estratégias, atualizações, inquéritos, estatísticas, pesquisas sociológicas, aggiornamenti, etc., unidos a um esquecimento e uma desconfiança quase total no Magistério Pontifício: deu-se mais importância a um “pseudo-teólogo audaz” , que dizia “novidades” para escandalizar e humilhar os antigos, do que ao Magistério do Papa ou ao Magistério autêntico do Concílio].

Em face disso −que teve muito de inautenticidade e de descalabro −convém lembrar qual era a verdadeira “abertura ao mundo” que o Beato João XXIII pretendia ao convocar o Concílio Vaticano II. Na Constituição Apostólica Humanae salutis, de 25-XII-61, convocando o Concílio Vaticano II, João XXIII dizia: “O próximo Concílio, portanto, reúne-se, felizmente, no momento em que a Igreja percebe, de modo mais vivo, o desejo de fortificar a sua fé e de se olhar na própria e maravilhosa unidade; como, também, percebe melhor o urgente dever de dar maior eficiência à sua forte vitalidade, e de promover a santificação de seus membros, a difusão da verdade revelada, a consolidação das suas estruturas. Será esta uma demonstração da Igreja, sempre viva e sempre jovem, que sente o ritmo do tempo e que, em cada século, se orna de um novo esplendor, irradia luzes novas, realiza novas conquistas, permanecendo, contudo, sempre idêntica a si mesma, fiel à imagem divina impressa em sua face pelo Esposo que a ama e protege, Jesus Cristo”(sublinhados e grifos nossos).

  1. É, portanto, missão do padre “ir ao mundo”, não para cair aos pés do mundo e lambê-lo como um cachorrinho que quer ser bem acolhido(e, menos ainda, para ser um líder mundano de uma política horizontal intramundana), mas para amá-lo com Cristo, levar-lhe a verdade de Cristo, salvá-lo com Cristo e elevá-lo até a vida de Cristo, aqui e na eternidade; vida cristã, mensagem salvadora de Cristo, que, em muitíssimos aspectos, é diferente e até oposta ao que o mundo valoriza, vive e defende como ideais e bens.

Basta pensar na Carta Magna do Cristianismo, nas Bem-aventuranças: nelas se sintetiza o ideal que Cristo nos marca como caminho, e que é, em todas elas, o contrário dos padrões e das máximas do “mundo”: −Cristo proclama “felizes os pobres”, e o mundo diz “felizes os ricos que têm e consomem”; Cristo diz “felizes os mansos e humildes” e o mundo diz “felizes os dominadores, os que brilham, os prepotentes”; Cristo diz “felizes os que choram (lágrimas de penitência, ou de amor à Cruz)”e o mundo diz “felizes os que riem e bebem e fogem da dor e do sacrifício”; Cristo diz “felizes os puros de coração” e o mundo diz “felizes os que não têm entraves nem ‘preconceitos’ para toda a sorte de impurezas”; Cristo diz “felizes os que têm fome e sede de santidade (justiça)” e o mundo diz “felizes os que têm fome de realização, de sucesso, de triunfo egoísta”; Cristo diz “felizes os que são perseguidos por causa do meu nome” e o mundo diz “felizes os que são aplaudidos porque são abertos e tolerantes com tudo”, etc.

Muito bem entenderam essa verdades os Apóstolos e os primeiros cristãos: Assim, por exemplo, São Pedro, àqueles que se converteram no dia de Pentecostes e perguntavam o que deviam fazer, falava-lhes da conversão, do arrependimento dos pecados e do Batismo, e exortava-os, dizendo: Salvai-vos do meio desta geração perversa(Atos 2, 37-40). E São Paulo dizia: Não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê das suas ideias frívolas(Ef 4,l7). Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente (Rom 12,2). Fazei todas as coisas (…) a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, filhos de Deus íntegros no meio de uma sociedade depravada e maliciosa, onde brilhais como luzeiros no mundo” (Fil 2,14-15),etc.

Como Cristo, temos que ser misericordiosos, compassivos com os pecadores, pacientes com seus erros, apóstolos sem zelo amargo. Mas, acima de tudo, temos que ser fiéis à Verdade e responsáveis por dar exemplo de santidade, de valores e virtudes cristãs. Mas, em qualquer caso, devemos aceitar de antemão que haverá incompreensões e, mesmo que atuemos com infinita caridade, será inevitável que despertemos o ódio e a calúnia de muitos (pensemos no ódio com que muitos falam das posições da Igreja em defesa da vida, do matrimônio, etc.). Cumprir-se-á o que Cristo anunciou: Sereis odiados de todos por causa do meu nome (Mat 10, 22). Se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia (Jo 15, 18-19).

Não esqueçamos a vida dos primeiros cristãos, que são e serão sempre o nosso modelo. Os primeiros cristãos eram “chocantes”, mesmo sem querer sê-lo: a)Para alguns dos pagãos, eram ridículos (lembrar o grafite que pinta um cristão adorando um crucificado com cabeça de asno): não nos estranhe, pois, que quem procura viver o Evangelho, as Bem-aventuranças, seja visto como um ser “estranho”, “antiquado”, exagerado e antipático pela mentalidade do mundo;  b) para muitos outros, os primeiros cristãos eram intoleráveis − sua pureza era uma bofetada na sua corrupção −, e o choque era de tal ordem que terminava no martírio.

É interessante observar as referências que João Paulo II faz ao martírio em vários dos seus importantes documentos. P.e., na Veritatis splendor ( n. 90): Os mártires, e mais em geral todos os santos da Igreja, através do exemplo eloquente e fascinante de uma vida totalmente transfigurada pelo esplendor da verdade moral, iluminam cada época da história despertando o seu sentido moral. Dando pleno testemunho do bem, eles são uma viva censura para os que transgridem a lei (cf. Sb 2,12), e fazem ressoar, com permanente atualidade, as palavras do profeta: ‘Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal, que têm as trevas por luz e a luz por trevas, que têm o amargo por doce e o doce por amargo”(Is 5,20).

E também na Carta Apostólica Tertio Millennio Adveniente, o Papa pede um exame aos filhos da Igreja: em que medida não estão eles também tocados pela atmosfera de secularismo e relativismo ético? E que parte de responsabilidade devem eles reconhecer, quanto ao progressivo alastramento da irreligiosidade, por não terem mostrado o genuíno rosto de Deus…? (n. 35). E, no n. 37,fala do martírio: A Igreja do primeiro milênio nasceu do sangue dos mártires (…); e acrescenta que nunca teria podido haver um desenvolvimento da Igreja como o que houve no primeiro milênio se não tivesse havido aquela sementeira de mártires e aquele patrimônio de santidade que caracterizaram as primeiras gerações cristãs.

Agora, na nova evangelização, o espírito tem que ser o mesmo.

a) fidelidade à verdade. Aprofundamento sincero. Não “ideologias”, que não são teologia. Já foi feito muito mal por parte dos “teólogos-ideólogos”. O que precisa é de fé e fidelidade (conclusão patente após a crise dos EUA em 2002);

 

b) santidade de vida, cuidando de modo muito especial de não nos deixarmos envolver, dominar e cegar pelo mundanismo.

 

  1. E aqui vale a pena acrescentar mais algumas reflexões sobre esse perigo de mundanismo.

Para o sacerdote secular (especialmente), esse perigo é duplo:

A) Já falávamos do grave erro dos que pensam que se aproximarão do mundo adaptando-se a ele, inclinando-se diante dos seus “valores”. Lembremos a corajosa retidão de São Paulo: É, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar os homens? Se quisesse ainda agradar os homens, não seria servo de Cristo (Gal 1, 10);

B) Mas precisamos ter também muito em conta outro perigo sério: o de confundir secularidade com mundanidade. Os sacerdotes seculares estão chamados a viver no mundo, não num convento, sujeito a clausura, à regra, ao Superior, etc (supõe-se aqui um convento de religiosos fiéis, observantes).

A “secularidade” faz com que o sacerdote diocesano (e o análogo) tenha ampla autonomia na sua vida íntima (p.e., pode seguir a espiritualidade que quiser), uma grande liberdade na sua vida particular (não na sua vida pastoral). De fato, ele organiza livremente seus horários privados de oração, de leituras e também os de lazer, dentro do que suas obrigações pastorais permitem (horas de dormir, de assistir tv − p.e., assistir novela ou filme ou nada−, de navegar na Internet, de eventuais jogos eletrônicos); ele escolhe −dentro dos limites das normas diocesanas, que muitas vezes nem existem − a que tipo de espetáculos assiste (cinema, teatro, ópera, concerto, etc); ele compra − dentro das suas disponibilidades − o que julga oportuno (desde alimentos de seu especial gosto − que o religioso observante não pode comprar −, passando por vinhos, e chegando até aparelhos eletrônicos, material de telecomunicações ou multimídia de todo tipo, carro ou moto, etc.); ele resolve o modo de aproveitar as férias; ele decide as viagens que − dentro dos seus recursos − queira fazer; ele convida à sua casa quem bem entende, etc.

Tudo isto, sem dúvida, faz parte da autonomia “privada” de um “secular”. Mas nada disso pode fazer esquecer que, em primeiro lugar(e acima de qualquer “secularidade”), nós somos cristãos, e somos padres chamados a uma especial santidade e a uma especial identificação com Cristo; e temos um grave dever de exemplaridade, de sermos “tochas” acesas, que iluminam com a luz de Cristo.

Por isso, é preciso não fechar os olhos e dar-nos conta de que muitas dessas “liberdades” seculares, teoricamente possíveis, na realidade, são formas de puro e simples “mundanismo”, manifestações das duas doenças graves da atual sociedade paganizada: o hedonismo e o consumismo; e que isso é incompatível com a santidade. É preciso ser sinceros e corajosos. Todo o sacerdote e todo o seminarista deve perguntar-se sempre, com muita sinceridade: essa minha atitude, essa dedicação do tempo livre, essa despesa, esse capricho, esse aparelho desnecessário, essa viagem, etc, será que está de acordo com o exemplo de Cristo? Cristo faria isso? Eu veria natural que Nossa Senhora, são José, ou que qualquer dos Apóstolos agisse assim? E ainda convém perguntar-nos: estas atitudes ou opções minhas, estão de acordo com o espírito das Bem-aventuranças, sem as quais não há santidade cristã nem exemplaridade sacerdotal? Não podemos pensar na secularidade como um salvo-conduto para viver “uma versão rebaixada do Evangelho”. Seria recair no antigo equívoco, hoje já totalmente ultrapassado, de que os que seguem Cristo de perto, a sério, com radicalidade, não são os seculares, mas exclusivamente os religiosos! Fica claríssimo no Evangelho que uma porção de mandamentos e conselhos de Cristo, bem radicais (como negar-se a si mesmo, servir e ser o último, tomar a Cruz, obedecer até à morte, deixar tudo -“vai, vende tudo o que tens”-, ser dos que vivem  o celibato “pelo Reino dos Céus”, etc, etc), não são um programa “para religiosos”, mas simplesmente um roteiro evangélico da santidade cristã para inúmeros batizados que queiram levar a sério a sua vocação, sejam eles padres ou leigos, solteiros ou casados. Ou será que os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos e as Epístolas −que são para “todos” − não são “seculares”?

Há muito que refletir neste ponto, pois, sem perceber, são numerosos os padres que se esquecem dessas realidades espirituais muito sérias. Julgam que, por não serem religiosos, já podem fazer tudo o que não seja, em si, “intrinsecamente mau”: e isto está completamente errado. Ninguém pode seguir a Cristo e ser santo sem viver − como já víamos −o desprendimento pessoal e o espírito de pobreza, sem tomar a Cruz, sem negar-se a si mesmo e praticar o espírito de sacrifício e a renúncia; sem ser generoso para com os pobres; sem viver sóbria e temperadamente, ou seja, sem renunciar a muitas coisas “lícitas”, por amor a Deus. Neste sentido, o testemunho de todos os sacerdotes seculares santos é unânime!

São reflexões simples, que podem fazer-nos −com a ajuda de Deus e de Nossa Senhora −um grande bem, agora e no futuro.

 

Via: www.padrefaus.org

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