Frases de Santos

Artigos › 18/02/2021

MONS. PEDRO CINTRA – UMA VIDA DOADA A DEUS NA IGREJA

 

 

Auto-biografia escrita, a próprio punho, por Mons. Pedro Cintra, em novembro de 2000

 

Nasci em Brazópolis, no Bairro do Bengalal, em 17 de fevereiro de 1913. Meus pais chamavam-se Adolfo Gonçalves Cintra e Alvarina Pereira Cintra.

Minha vocação sacerdotal surgiu espontaneamente. Mistério de Deus!

Eu era menino de roça. Pobre. Fiz amizade com um coleguinha da Escola primária. Ele era rico, tinha irmãos em seminários, uma irmã religiosa. Apesar de pobre, ele gostava de mim, ou gostava de montar na garupa do cavalo em que eu vendia leite. Ele e um irmão menor falavam que iam ser padres. Fiquei contaminado pela idéia. Dentro de alguns meses eles foram para o Seminário Redentorista de Aparecida. O Padre Missionário que os levou não me aceitou. Eu não podia pagar. Era menino roceiro, desajeitado, dentes apodrecidos. Não prenunciava bom futuro. Mas o ideal impregnado em mim pelos dois amiguinhos permaneceu. Agora já era uma vocação, isto é, chamado de Deus.

Ouvi falar no Seminário Diocesano de Pouso Alegre. Precisava falar com o Vigário, Cônego Herculano Moreira. Ele não me conhecia. Lauro, meu irmão, o ajudava na igreja, porque residia na cidade com minha avó materna, vizinha da igreja. Por seu intermédio falei com o Vigário que me acolheu com alguma simpatia. Declarou-me que o Bispo, Dom Octávio, viria a Brazópolis em visita pastoral dentro de alguns dias. Minha mãe, Alvarina, deveria falar com o Bispo pessoalmente. Falar com o Sr. Bispo, naquele tempo, exigia uma dose de muita coragem. Minha mãe era roceira e tímida, mas diante de minha insistência, enfrentou e foi comigo à casa paroquial. Dom Octávio foi acolhedor. Eu seria aceito no Seminário, mas era necessário pagar pelo menos meia pensão, isto é, 400 mil réis por ano. O Sr. Bispo falou que o Seminário era muito pobre. Mesmo sem poder, minha mãe topou a parada. Se já trabalhava muito, ia trabalhar mais ainda na esperança de ter um filho padre. Ficou tudo combinado. Era o mês de novembro de 1926.

O enxoval começou a ser preparado. Mamãe não estava financeiramente prevenida para tal despesa, mas gozava de bom crédito no comércio. Era necessário também um bom serviço nos dentes cariados. Um tio de minha mãe se incumbiu de providenciar um dentista. Arrumou o pior da cidade. Encheu-me a boca de obturações de ouro, muito mal feitas. Parecia um ciganinho. Devo observar que um tio de minha mãe e meu irmão mais velho foram difíceis de vencer. Estava tudo pronto. Havia terminado a terceira série escolar. No dia 21 de fevereiro de 1927 eu entrava para o Seminário Diocesano de Pouso Alegre. Meus amiguinhos Romeu e José Braz Pereira Gomes foram para o Seminário de Aparecida um mês antes. Romeu deixou o Seminário depois de alguns anos. José Braz tornou-se Missionário Redentorista. Foi professor de Teologia e reside hoje em Aparecida, onde ainda presta serviços à Igreja.

Agora, eu já era seminarista. Devido aos dentes obturados a ouro e minhas roupas acaipiradas fui logo apelidado de capiau, caipira, matuto. Foi a primeira dificuldade a vencer. Tudo superei.

Os superiores exigiam, logo nos primeiros dias, decorar um número grande de orações em latim: Pai Nosso, Ave Maria, Salve Rainha, o Salmo 50 e outras, e também alguns hinos clássicos da Igreja, além de ser preciso também aprender a responder à Missa em latim. Rezei muito, fiz promessas absurdas e chorava escondido, com receio de que aquele latinório sem fim entrasse na minha cabeça. Foi mais uma etapa vencida.

Começaram as aulas. Mandaram-me cursar a Quinta Série, eu que só tinha o 3º Ano primário. Encontrei muita dificuldade. Repeti o ano. Fiz então uma base robusta para o futuro. Não houve mais dificuldades.

Encerrei a Oitava série. Recebi a batina. Foi a grande alegria de minha vida de seminarista. Comecei a cursar o Segundo Grau e, ao mesmo tempo, a Filosofia. Era uma carga pesadíssima. Mas em dois anos venci e já entrava triunfante no Curso de Teologia, no tradicional e histórico Seminário Maior de Mariana.

Meu contentamento era indescritível!

Em Mariana, tudo era estranho para mim e meus colegas de Pouso Alegre. Um mundo diferente! Era uma comunidade de 150 alunos. Em Pouso Alegre, éramos meia dúzia. A adaptação não foi fácil, mas aconteceu logo. Havia compensações: belos passeios ao Pico do Itacolomy, à história cidade de Ouro Preto, aos museus, aos monumentos históricos, às igrejas artísticas do tempo colonial trabalhadas pelo célebre Aleijadinho.

As Ordens Menores recebi em Mariana, em duas etapas, das mãos de Dom Helvécio Gomes de Oliveira, Arcebispo Metropolitano. As Ordens do Subdiaconato e Diaconato, recebi em Pouso Alegre.

Concluídos meus 4 anos do Curso Teológico, fui ordenado sacerdote por Dom Octávio Chagas de Miranda, na Catedral de Pouso Alegre, aos 8 de dezembro de 1937, juntamente com o Pe. Francisco Simões e Pe. Afonso Carvalho, ambos falecidos.

Celebrei minha Primeira Missa Solene em minha Brazópolis natal, em 12 de dezembro de 1937.

Fui, então, designado para Vigário Cooperador de Mons. Teófilo Guimarães, Pároco de Ouro Fino, onde cheguei em 1º de Fevereiro de 1938. Aos 18 de março de 1939, fui nomeado também Vigário Ecônomo de Crisólia, residindo, porém, em Ouro Fino. Em Crisólia, restaurei a Matriz e construí a Igreja de São José do Mato Dentro. Em 30 de dezembro de 1943, recebi a Provisão de Vigário Auxiliar de Ouro Fino, praticamente assumindo devido a impossibilidade de Mons. Teófilo, já idoso e bastante enfermo. Organizei a assistência social e construí o Educandário São José. Lancei as sementes de um Asilo, mais tarde tornando-se uma realidade graças aos esforços do Sr. Sebastião Assis e Mons. José Roberto da Silva.

Com a morte de Mons. Teófilo, em 1945, fui nomeado Pároco de Maria da Fé, onde incentivei a construção da Vila Vicentina.

Em agosto de 1947 fui designado Pároco de Borda da Mata, tomando posse da Paróquia em 21 de setembro do mesmo ano, com a incumbência de terminar a construção do prédio do Colégio Nossa Senhora do Carmo e construir a nova Matriz, uma vez que a existente se encontrava um tanto deteriorada.

Exerci, ao mesmo tempo, o encargo de Vigário Ecônomo de Bom Repouso por duas vezes: em 1953, nomeado por Dom Octávio, e em 1958, nomeado por Dom Oscar de Oliveira. Em 22 de agosto de 1958, fui nomeado Pároco Consultor da Diocese de Pouso Alegre, por Dom Oscar.

Ao assumir a Paróquia de Borda, não encontrei um centavo em caixa. Havia, sim, uma dívida para com a Capela filial de tocos do Mogi.

Porém, obedeci o meu bispo, iniciando imediatamente a construção do Colégio, cujos alicerces já estavam prontos. Em 1949, as Irmãs Dominicanas já estavam instaladas no novo prédio e comecei a angariar fundos para iniciar a construção da nova Matriz. 

Fiz ciente o povo ciente que a obra da Matriz seria iniciada no momento em que tivéssemos um piso financeiro de quinhentos mil cruzeiros. Um grande mostrador de relógio mostrava ao povo as importâncias que entravam para o caixa. Foram marcados no mostrador quinhentos traços, que significavam minutos. Quinhentos minutos, seriam, portanto, os quinhentos mil cruzeiros de que precisava para dar início à obra.

Enquanto se arrecadava o dinheiro, dei andamento para o projeto arquitetônico. O arquiteto indicado foi o Sr. José Sacchetti, residente em São Paulo. Pedi um desenho para uma Igreja em estilo moderno, porém o Sr. José Sacchetti me convenceu, por meio de uma carta, a construir em estilo clássico. Em poucos meses estava pronto o projeto em estilo romano lombardo. Dom Octávio fez algumas restrições quanto às coberturas artísticas sobre as portas laterais e principal, mas o Sr. José Sacchetti escreveu diretamente ao Sr. Bispo, que retirou as restrições.

O nosso projeto arquitetônico é modesto, mas foi executado rigorosamente. Por isso, nossa Igreja apresenta um conjunto muito agradável. É simples, mas agrada.

Pude marcar a Bênção da Pedra Fundamental em 16 de julho de 1951, data na qual se comemorava o 7º Centenário da entrega do Escapulário do Carmo por Nossa Senhora a São Simão Stock. A cerimônia foi presidida por Dom Octávio que, no momento da despedida, num gesto de fina delicadeza, para estimular este Pároco, deixou em minha mão uma cédula de duzentos cruzeiros. 

Quando começamos a rasgar os alicerces, teve gente que falou que eu estava louco em construir uma igreja tão grande. Hoje, vejo que não estava errado, pois, em certas ocasiões este belo e monumental templo se torna pequeno para acolher todos os fiéis que a ele acorrem.

Considerando que Borda da Mata era uma cidade pequena e pobre, foi uma construção realizada em tempo recorde, com a rapidez que ninguém esperava. O povo se entusiasmou e a colaboração foi completa. Todos, indistintamente, colaboraram: das crianças (que cobriram a igreja, na Campanha da Telha) aos mais velhos. Não houve grandes donativos. Um Livro de Ouro para colher assinaturas foi logo deixado de lado. Tudo foi feito com a ajuda dos remediados e pobres. Os sitiantes constituíram a grande força com seus garrotes e leitoas, doando 5 a 6 garrotes por ano. Realizaram-se pequenos leilões, concursos de bonecas, teatrinhos, entre outros movimentos.

A obra não parou um dia por falta de numerário ou material. Lembro como era difícil conseguir o material para construção, pois não havia na cidade casas comerciais de materiais de construção e os materiais vinham de fora. Também não foi interrompida um dia sequer por motivo de chuva. No tempo do verão, chovia durante a noite. Durante o dia, o tempo sempre permitiu o trabalho. 

A oração também ajudou na construção da nova Matriz. Foi impressa uma pequena oração, pedindo as bênçãos divinas, por intermédio de Nossa Senhora do Carmo, para o bom êxito da obra encetada. Era rezada diariamente com o povo, após a recitação do terço, à tarde.

Andei até com tijolo dependurado ao pescoço… As circunstâncias exigiram. Mas tenho a certeza de que o que mereceu da minha parte maior disponibilidade foi a pastoral, a construção do templo de Deus nas almas e o plantio da semente do Evangelho nos corações. Do contrário, teria sido besteira ser padre.

A Sagração da Nova Matriz se deu em duas etapas, em 14 e 15 de Julho de 1958, ano do Centenário da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo. A cerimônia foi presidida pelo ilustre filho da terra, D. João Rezende Costa, Arcebispo de Belo Horizonte.

Contruí também a Casa Paroquial, que hoje é o Centro de Pastoral São José e algumas Capelas filiais tanto na área urbana quanto na rural da Paróquia.

Fiz o que pude para o bem espiritual do povo bordamatense.

Cuidei também de minha mãe e meu irmão Lauro, cujas partidas, muito me feriram, além do falecimento de meu cunhado, Geraldo Puttini, que era como meu irmão, ajudando-me muito durante sua permanência em Borda da Mata. Era uma pessoa, a meu ver, sem defeitos!

Sentindo a saúde um tanto debilitada e as forças não serem suficientes para exercer a contento a missão de pároco, encaminhei ao meu Arcebispo, Dom José D’Ângelo Neto, minha renúncia. Num primeiro momento ele não aceitou, mas diante de minhas justificativas, de bom grado, enviou para Borda da Mata um novo pároco, o Pe. José Eugênio da Fonseca, que tomou posse da Paróquia em 10 de fevereiro de 1985.

 

Oração

Ó Deus de amor e misericórdia, que inspirastes ao vosso servo Monsenhor Pedro Cintra, sacerdote fiel, um grande desejo de santificação da vida cumulando-o com tantas graças, concedei-me imitar sua devoção a Santa Teresinha do Menino Jesus no segmento da sua doutrina espiritual, na pequena via, seguindo o Cristo Mestre na caridade e no oferecimento ao amor misericordioso como vitima de holocausto, seu amor devotado a SS. Eucaristia e à Igreja, especialmente a devoção à SS. Virgem do Carmo.

Pai de bondade, nós vos pedimos que ele seja glorificado pela Igreja e, por sua intercessão, alcancemos a graça que pedimos ( as nossas prementes necessidades… um instante de silêncio).

Santa Teresinha do Menino Jesus, rogai por nós!

Pai Nosso, Salve Rainha e Glória ao pai

(Aprovada: Dom Ricardo Pedro C. Pinto Filho)

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Via: Basílica Nossa Senhora do Carmo, Borda da Mata MG. 

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