Frases de Santos

Formação › 19/04/2020

Maria Madalena de Pazzi e a Misericórdia

O DEUS DE INFINITA MISERICÓRDIA NOS ESCRITOS MÍSTICOS DES SANTA MARIA MADALENA DE PAZZI

Fr. Charlò Camilleri, O.Carm.

 

…Realmente podemos chamar esta santa a anunciadora da Divina Misericórdia: “Ó Deus, sumamente misericordioso e altíssimo, Tua misericórdia não tem limites! Verdadeiramente Tu amas Tuas criaturas! É mais forte o Teu desejo de atrair o homem a Ti que o desejo do homem de vir a Ti”.

Quais são as raízes desta experiência da misericórdia divina em Madalena? Em primeiro lugar, ela deu-se conta de que Deus pôs Seus olhos sobre ela desde sua concepção no seio de sua mãe; e apesar de não ter feito nada para ser digna desta escolha, Ele, em Seu amor e misericórdia, a quis para Si. Neste sentido, a santa dá-se conta de que quando Deus demonstra misericórdia, é amoroso. Por outra parte, o amor de Deus é a Sua misericórdia e a Sua misericórdia é o amor. A misericórdia não surge da capacidade emotiva de sentir compaixão por uma pessoa, mas emerge do amor. Deus tem misericórdia de nós porque somos queridos para Ele. Ele nos ama.

Os escritos místicos de Madalena nos transmitem a sua experiência espiritual; neles a santa faz uso do termo misericórdia, de modo explícito e direto, cerca de 1020 vezes, e sempre quando está a falar de Deus. A maior parte dos seus escritos são, na realidade, a transcrição feita pelas suas irmãs do que ela exprimia verbalmente durante seus êxtases. Trata-se, portanto, da comunicação que Madalena fazia do mistério que se revelava diante do seu olhar místico e como, através de uma espécie de pregação, ela anunciava o mistério de Deus na Igreja. Destas transcrições nasceram cinco volumes: Os Quarenta Dias, Os Colóquios, Revelações e Inteligências e A Prova.

Trataremos aqui de algumas considerações específicas referentes ao tema da misericórdia nos seus escritos.

 A misericórdia como remédio à indiferença

Um dos temas que sem dúvida se destaca na doutrina de Madalena é o da misericórdia, em contraste com a indiferença e a ingratidão do homem. Em muitas ocasiões a santa reflete sobre a indiferença do homem para com Deus e pergunta, de uma maneira surpreendente, o que é que o homem quer que Deus faça para poder atraí-lo a Si: “Ó grande Amor, o que é necessário da Tua parte? O conhecimento? Ou, talvez, a bondade, a amabilidade?  Ou a misericórdia? A bondade ou o amor?” Madalena faz estas perguntas no seu esforço de compreender o motivo pelo qual o homem reage contrário a Deus, e faz isto enquanto submerge na meditação da Paixão de Jesus Cristo – que é, como ela diz, “o ramo de oliveira de Deus, ramo de paz e misericórdia” –  e na meditação dos sofrimentos que Ele padeceu nas mãos dos iníquos.  As feridas de Cristo na cruz destilam abundante misericórdia de modo que a alma pode dela beber e tornar-se, misericordiosa “movida de grande generosidade para com seus irmãos em suas necessidades espirituais e materiais”.

Portanto, é através desta misericórdia que a enfermidade da indiferença é curada. Sim, para a indiferença e o coração frio Deus oferece a medicina da misericórdia, que dissolve o coração e move-o em direção a Si e aos irmãos. A alma que sacia sua sede na fonte da misericórdia, que mana das chagas de Cristo, se sente desapegada das coisas materiais deste mundo, e com grande ligeireza torna-se toda dedicada a servir a Deus e ao próximo. Em outras palavras, podemos dizer que a alma se torna semelhante a Cristo e vive totalmente para honrar o seu santo nome.

“O Seu nome é misericórdia”

Madalena de Pazzi também reflete sobre o significado do nome de Cristo. No Céu, diz ela, “o nome de Cristo é Beleza, mas na terra é Misericórdia e Amor; enquanto no inferno é Justiça”. Para nós e para nossa salvação o nome de Cristo é Misericórdia, porque Ele “em tudo age com misericórdia, e essa misericórdia é realizada através do grande amor que Ele nutre para com todas as criaturas”. De fato, a criação não é outra coisa senão o resultado da Sua misericórdia, a redenção resulta da Sua misericórdia, e o dom do Corpo e Sangue de Cristo na Eucaristia só é possível graças à Sua misericórdia, porque “o seu nome é Misericórdia”, como expressou o Papa Francisco em seu livro intitulado Seu nome é Misericórdia.

E porque o Seu nome é Misericórdia, a Sua identidade é Misericórdia, ou como disse Madalena: “O Seu próprio ser é Misericórdia”. E insiste: “Ninguém pode compreender plenamente esta misericórdia, a não ser o próprio Deus”. Nós não podemos compreender Deus completamente. Podemos intuir que Ele é Misericórdia por conta da Sua conduta para conosco. É assim que Ele também nos mostra Sua justiça, quando é necessário que sejamos repreendidos. Ele faz isso para que a nossa vida melhore e para que nos afastemos daquilo que prejudica a nós mesmos, aos outros e a nossa relação com Ele. A Sua repreensão, como um ato misericordioso, nos faz adentrar em nosso íntimo e nos aproximar d’Ele, de modo que estejamos prontos para receber o Seu perdão, que nos é doado pela união com Ele.

Madalena de Pazzi deixa claro que com relação aos que se encontram no inferno “Deus age de um modo justo e misericordioso”. De fato, a misericórdia não pode ir contra aquilo que é justo e reto, e a justiça não seria justiça se não refletisse a amabilidade de Deus para conosco; seria, ao contrário, uma punição vingativa, coisa que não faz Deus, como diz a santa: “Com uma misericórdia tão grande, és quem és e não te vingas das ofensas que cometemos contra Ti”. Madalena sublinha que a nossa percepção de que há oposição entre Justiça e Misericórdia Divina é produzida por Lúcifer.

Ela imagina que através disto o diabo nos ofereça como que uma escada para nos elevar a este Deus de misericórdia, mas por ser quem é, põe dificuldades para que a subamos decididamente: ele põe como que uns espinhos em nossos pés, fazendo-nos esquecer que Deus destruiu esta contraposição inexistente entre Misericórdia e Justiça, pois no seu amor para conosco, Ele nos deu o seu único Filho feito homem. Este amor, expresso na Sua justa misericórdia e na Sua amorosa justiça nos impele a viver constantemente na verdade e no amor de Deus, abraçados pela sua misericórdia:

“Ó meu amável Deus, como podes ser misericordioso para comigo se eu não me abandono completamente em Ti? Tem misericórdia de mim, meu Deus! Sei bem que não sou digna, e que mereço mil infernos. Apesar disso, realmente posso orar para receber esta misericórdia, ó Deus, porque Tua é a misericórdia. Assim, meu Deus, o que posso fazer é suplicá-la!”

 

 2 TEXTOS DA OBRA OS 40 DIAS, DE M M DE PAZZI

 

 

CRISTO, A PONTE DE NOSSA SALVAÇÃO (Segunda, 28 de maio de 1584)

Depois de ter comungado e estando a refletir aquelas palavras de Jesus: “Ninguém vem ao pai senão por mim” (Jo 14, 6-7), pareceu-me ver Jesus – por não encontrar outra coisa que comparar – semelhante a uma ponte e que ninguém podia salvar-se se não passasse por ela, ou seja, por meio de seus mandamentos, da sua vida e da sua Paixão.

Pareceu-me ver a Santíssima Trindade cheia de amor para com as criaturas, mas que as criaturas não conheciam esse amor e não se determinavam a amar puramente a Deus. E vi que o Senhor tinha criado a alma de um infiel com o mesmo amor com o qual criou a de sua Mãe Santíssima. A Virgem, porém, cooperou com a graça e ia crescendo e aumentando em si o dom divino, e os infiéis, ao contrário, se tornam indignos dela.

Aquele amor me parecia tão grande e sem medida que jamais criatura alguma poderia compreendê-lo, exceto, de modo limitado, aquele que o experimenta. Ao ver a grandeza desse Amor, me senti impulsionada a gritar: “Amor, Amor!”, com tal ímpeto e veemência, que cheguei a dizê-lo em alta voz. Se me houvesse sido possível, teria corrido todo o mundo gritando: “Amor, Amor! ”. Mas vendo que as criaturas se preocupavam tão pouco deste amor, senti uma pena muito profunda e, entristecida, chorei bastante.

A BONDADE DE DEUS E A MALÍCIA DO HOMEM (Quarta-feira, 30 de maio de 1584)

Depois de ter comungado, refletia sobre aquelas palavras do salmista: “Quantas são tuas obras, ó Senhor, e quão sabiamente ordenadas” (Sl 104,24). Pareceu-me que o Eterno Pai estava realizando tudo com sua Sabedoria, e compreendi que esta era seu Filho. O Eterno Pai criava por meio do seu Filho, e na Santíssima Trindade residia a perfeição de todas as coisas em grau infinito. Porém faltava uma coisa: a humanidade. Por isso o Pai, enviando Jesus, o Verbo encarnado, com a sua sabedoria aperfeiçoou a humanidade e fez como que o que antes não existia passasse a existir na Santíssima Trindade. Minha alma via quantas coisas Deus realizava em sua sabedoria só para o benefício das criaturas, não tendo Ele necessidade de nenhuma delas.

Conhecendo quão pouco as criaturas conhecem estes benefícios e quão pouco amam a Deus, senti, por este grande pesar, uma aflição quase insuportável e me vi forçada a exclamar: “Ó meu doce Deus, quão grande é a malícia humana! Ó meu Amor!, por que existe tanta cegueira?”  Tamanha era a dor e o ímpeto sentidos, que chegava a dizê-lo em voz alta. Isto me foi dado a conhecer quando meditava aquelas palavras: “Quantas são tuas obras, ó Senhor, e quão sabiamente ordenadas” (Sl 104,24).

Minha alma, conhecendo os benefícios de Deus, voltou-se alegremente a Ele, dizendo: “E na tua bondade esperarei” (Sl 13,6). E vendo que era tão grande a sua bondade para conosco, pus toda a minha esperança n’Ele, que é a própria bondade.

E na consideração de tudo quanto Deus havia feito por suas criaturas, mediante sua Sabedoria, ou seja, Jesus, e sua infinita bondade, repetia muitas vezes aquelas palavras: “E na tua bondade esperarei”. Depois, recomendando as criaturas a Jesus, terminei, como de costume, minha meditação.

 

Fonte: fradescarmelitas.org.br

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