Frases de Santos

Formação › 30/11/2020

Liturgia no Novo Testamento

 

Olhando para o todo do Novo Testamento, vamos encontrar o termo liturgia 15 vezes, resumidos em três categorias: Liturgia em sentido profano (Cf. Rm  13,6; 15,27; Fl 2,25.30; 2 Cor 9,12 e Hb 1,7.14), Liturgia em sentido ritual-sacerdotal do Primeiro Testamento (Cf. Lc 1,23; Hb 8,2.6; Hb 9,21 e 10,11) e Liturgia em sentido de culto espiritual (Cf. Rm 15,16; Fl 2,17)[1].

A partir de uma leitura mais atenta dos evangelhos, concluímos que não existem argumentos válidos para sustentar que Jesus teve uma posição de contradição em relação ao culto do templo ou do culto da sinagoga, ou seja, Jesus de certa forma impõe ao culto hebraico uma purificação e conversão e, ao mesmo tempo, anuncia o fim do culto enquanto expressão cultual do Antigo Testamento[2].

Após sua morte e ressurreição Jesus nos enviou seu Espírito Santo. É na liturgia que encontramos os sinais visíveis da manifestação do Filho encarnado do Pai, a Sacrosanttum Contilium afirma que na liturgia “realiza-se a obra da nossa redenção”[3].  Toda obra salvífica de Deus se dá por meio da encarnação de seu Filho, para ser mais exato em sua entrega na cruz, morte e ressurreição, pois “esta obra da redenção dos homens e da glorificação perfeita de Deus, prefigurada pelas suas grandes obras no povo da Antiga Aliança, realizou-a Cristo Senhor, principalmente pelo mistério pascal da sua bem-aventurada Paixão, Ressurreição dos mortos e gloriosa Ascensão”[4]. A Páscoa de Jesus de fato é um acontecimento importante e decisivo, pois, este acontecimento é o cumprimento de toda história da salvação e o fundamento de tudo que se seguirá na história da Igreja.

Quando olhamos para vida de Jesus podemos perceber que Ele nasceu em um local extremamente religioso, onde José e Maria seguiam o costume de seu povo. Temos dois episódios bíblicos que nos ajudam em nossa reflexão, o relato da circuncisão de Jesus em Lc 2,21 e a apresentação do menino Jesus no Templo em Lc 2,22. Com isso, concluímos que, sem dúvidas, todas as manhãs e noites eles rezavam juntos o “Shema Israel”. Jesus, ao longo de sua vida participa e atua dentro da cultura e da religiosidade de seu povo[5]. Ele frequenta as reuniões na sinagoga todos os sábados (Cf. Mc 1,21-39; 3,1-6; 6,2; Mt 4,23; 9,35; 12,9; 13,54; Lc 4,16; 4,44; 13,10; Jo 2,13; 5,1; 7,2-14; 10,22-23). Também frequentava os cultos do templo e das festas anuais de peregrinação (Cf. Lc 2,41-42; Jo 2,13; 5,1; 7,2-14; 10,22-23…)[6].

Em Mc 7,5-6.15, Jesus destaca que os ritos judaicos e a liturgia vazia no templo, era vazia, sem vida e desprovida de espírito. Em Jo 2,13-21, encontramos a mesma atitude de Jesus ao se manifestar na purificação do templo, porque os vendedores e cambistas tinham feito da casa de Deus Pai uma casa de comércio[7].

Além destes fatos citados acima, Jesus nos fala de um culto em Espírito e verdade em Jo 4,23-24.

Culto não mais ligado a um determinado lugar; um culto que supera qualquer culto existente, judaico ou não judaico. Todos estes cultos não terão mais valor, mas haverá um novo culto… Este culto deve ser tal que corresponda à nova condição de vida que Jesus está proclamando no evangelho de São João e conforme todo o Novo Testamento: os novos adoradores devem ter nascido do Espírito (cf. Jo 3,3-8), eles devem ter sido santificados pela palavra da verdade (cf. Jo 17,17.19)[8].

Este novo culto, adorar Deus em espírito e verdade, não é meramente um culto espiritual, mas a vivência do amor fraterno, uma vida conforme a verdade, seguir os passos de Jesus[9]. O culto só é valido se for declaração de uma atitude profunda, o novo culto apresentado por Jesus é guiado pelo Espírito Santo a partir de dentro do homem. Portanto, o autêntico culto cristão e por essência trinitário, pois consiste em adorar o Pai em Espírito e Verdade, que é Cristo, o Filho de Deus; e se dirige ao Pai[10].

O Espírito Santo se faz presente em toda história da salvação, com isso, podemos afirmar que o Espírito Santo é a manifestação do amor do Pai, e por meio d’Ele constatamos a presença constante de Jesus no meio de seu povo. “Nessa perspectiva, apresentamos o mistério da celebração litúrgica como o culto em espírito e em verdade de que Cristo falava (cf. Jo 4,24), pois a liturgia nasceu do lado de Jesus, morto na cruz, e é celebrada na virtude do Espírito Santo. Jesus Cristo, ao nos fazer partícipes do seu Espírito, capacita-nos a ser celebrantes da liturgia”[11]. Portanto, para compreendermos melhor a liturgia é preciso situá-la em sua perspectiva em relação a sua natureza, ou seja, precisamos compreendê-la a partir da economia salvífica que nos foi revelada pelo Pai, realizada pelo Filho e levada a termo pelo Espírito Santo no tempo da Igreja. O centro de toda história da salvação é o Mistério Pascal de Jesus, este mistério é o núcleo de toda ação liturgia. No Mistério Pascal de Cristo, realizou-se a salvação que a Igreja celebra e anuncia[12].  Precisamos compreender que toda história sagrada, desde a criação até a consumação final, é mistério de Cristo.

 

Pe. Leandro Couto

 

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[1] Cf. B. NEUNHEUSER; S. MARSILI; M. AUGÉ; R. CIVIL, op. cit., p. 46-47.

[2] Cf. S. MARSILI; J. PINELL; A. M. TRIACCA; T. FEDERICI; A. NOCENT; B. NEUNHEUSER, Panorama Histórico geral da Liturgia, 1987, p. 12. (Anáminesis 2).

[3] SC 2.

[4] SC 5.

[5] Cf. Gregório LUTZ, Celebrar em Espirito e Verdade, 1997, p. 15-16.

[6] Cf. X. BASURKO; J. A. GOENAGA, A Vida Litúrgica Sacramental da Igreja em sua evolução histórica, in Dionísio BOROBIO, A Celebração na Igreja: Liturgia e sacramentologia fundamental, 2002, p. 45. (v. 1).

[7] Gregório LUTZ, op. cit., 1997, p. 16.

[8] Idem, p. 7-8.

[9] Cf. Johan KONINGS, op. cit., p. 127-128.

[10] Cf. Pastoral Bible Foundation – Quenzon City (Filipinas); Ediciones Mensajero, S.A.V. – Bilbao (Espanha) Tradução de José Joaquim Sobral, in BIBLIA SAGRADA, Ave Maria: Edição de estudo, 2012, p. 1688.

[11] L. MALDONADO; P. FERNÁNDEZ, A Celebração Litúrgica: Fenomenologia e Teologia da Celebração, in Dionísio BOROBIO, A Celebração na Igreja: Liturgia e sacramentologia fundamental, 2002, p. 252. (v. 1).

[12] Cf. Julián López MARTÍN, A Liturgia da Igreja: Teologia, história, espiritualidade e pastoral, 2006, p. 68.

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