Frases de Santos

Formação › 18/01/2021

Eucaristia como banquete escatológico

A Eucaristia em sua dimensão futura é a antecipação do banquete escatológico do Messias, um banquete de esperança, onde proclamamos “até que ele venha” (1 Cor 11,26). O Concílio Vaticano II afirma que a presença e a ação divina na liturgia, transforma em acontecimento salvífico a celebração e antecipa os dons de Deus:

Na liturgia terrena, antegozamos, participamos da Liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual, peregrinos, nos encaminhamos. Lá, Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do tabernáculo verdadeiro; com toda milícia do exército celestial entoamos um hino de glória ao Senhor e, venerando a memória dos santos, esperamos fazer parte da sociedade deles; suspiramos pelo salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até que ele, nossa vida, se manifeste, e nós apareçamos com Ele na glória[1].

A escatologia está, intimamente, ligada à liturgia da Igreja. Tanto na Eucaristia, como na teologia escatológica o Mistério Pascal está no centro de toda ação e reflexão. “Em ambas, a ressurreição do Senhor é acolhida como o evento que inaugura a realidade definitiva”[2]. A Eucaristia é a antecipação do banquete final, que foi anunciado pelos profetas no Primeiro Testamento (cf. Is 25,6-9) e que foi descrito em Apocalipse 19,7-9 como “as núpcias do Cordeiro” que iremos celebrar na comunhão dos Santos[3].

As primeiras comunidades viviam um clima de espera, em relação à expectativa da segunda vinda de Jesus. Com isso, ao celebrar a Ceia do Senhor, os primeiros cristãos, celebravam em uma atmosfera de esperança escatológica. “A invocação da vinda do Senhor (Maranatha) era uma constante, o que dava à celebração eucarística um caráter de antecipação sacramental da vinda do Senhor. A experiência da presença do Senhor Ressuscitado engendrava o desejo e a esperança de sua volta definitiva”[4]. Ao estudarmos 1Cor 11,26. – “Todas as vezes, pois, que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha” – percebemos o quanto a dimensão de esperança está presente, ou seja, faz parte do Memorial Eucarístico.

A Eucaristia como memorial da páscoa do Senhor não é apenas o memorial do que já aconteceu (Morte, Ressurreição e Ascensão), mas também abre-se para a esperança futura. Portanto, a Ressurreição de Cristo já implanta o novo mundo do futuro e por meio da Eucaristia e de sua humanidade glorificada, deu-se início à transfiguração[5] “dos novos céus e da nova terra” (Ap 21,1). Com isso, podemos afirmar que a Eucaristia é uma celebração definitivamente escatológico.

Na eucaristia encontramos uma tríplice dimensão do tempo passado, presente e futuro. Pois a Eucaristia não é somente banquete comemorativo, mas antecipa a libertação e a reconciliação, unificando tudo em Cristo, partindo do pão e vinho da criação, chegando a Cristo Ressuscitado. Portanto, “toda celebração eucarística é ‘viático’, etapa no caminho da esperança em face da ‘terra prometida’, mas é simultaneamente nova força para encher da glória de Cristo todas as realidades presentes”[6].

Em relação ao passado e presente do memorial RATZINGER afirma: “‘Memória’ não tem relação somente com o passado e o presente, mas também com o futuro: é a lembrança, celebrada pelo ser humano, da ação salvadora de Deus, mas também um apelo a Deus do que resta a fazer; é o apelo da esperança e da confiança para o que vai vir”[7]. Portanto, a celebração Eucarística anuncia o que vai acontecer, o que será os últimos tempos e, ao mesmo tempo, contribui para a realização, alimenta a esperança de toda Igreja da mesma forma que a páscoa judaica alimentava a esperança de povo escolhido[8]. Em relação ao futuro a Eucaristia é “a antecipação do banquete escatológico do Messias. A comunidade olha para o futuro, para o Senhor, ‘até que venha’ (1Cor 11,26) é um banquete da esperança”[9].

A Eucaristia sendo um sacramento corresponde a afirmação de São Tomás de Aquino: “Um sacramento é sinal que rememora a causa passada, a paixão de Cristo; manifesta o efeito desta paixão em nós, a graça; e que prediz a glória futura”[10]. Por meio do memorial litúrgico e realizado um ato cultual pelo povo de Deus, onde se recorda um acontecimento do passado da salvação e ao mesmo tempo atualizamos está salvação, no mesmo momento em que lembramos a Deus de sua promessa, suplicando-lhe para executa-la[11].

Todavia não se pode esquecer que o banquete eucarístico tem também um sentido primário e profundamente sacrifical. Nele Cristo torna presente para nós o sacrifício realizado uma vez por todas no Gólgota. Embora aí presente como ressuscitado, ele traz os sinais de sua paixão, da qual cada Santa Missa é ‘memorial’, como a liturgia nos recorda com a aclamação depois da consagração: ‘Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição…’. Ao mesmo tempo que atualiza o passado, a Eucaristia projeta-nos para o futuro da última vinda de Cristo, no final da história. Este aspecto escatológico dá ao sacramento eucarístico um dinamismo cativante, que imprime ao caminho cristão o passo da esperança[12].

 

Concluímos que a eucaristia, sacramento escatológico, é sacramento do reino de Deus. Na eucaristia, acontece a primeira realização do Reino e, ao celebrar a Eucaristia, os cristãos também celebram a esperança da vinda gloriosa de Jesus[13].

“Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, senhor Jesus!”[14].

 

Por: Padre Leandro Paulo do Couto

 

___________________

 

[1] SC 8.

[2] Luiz Antônio Reis COSTA, Da mesa de peregrinos ao banquete do Reino a dimensão escatológica da eucaristia no Missal Romano de Paulo VI: análise teológico-litúrgica de textos seletos, Disponível em: http://www.faculdadejesuita.edu.br/documentos/031111-Luiz%20Antonio%20R%20Costa.pdf, p. 53.

[3] Cf. SCa 31

[4] Luiz Antônio Reis COSTA, op. cit., p. 55.

[5] Domenico SARTORE; Achille M. TRIACCA (Orgs.), Eucaristia in Dicionário de Liturgia, 1992, p. 413-414.

[6] Domenico SARTORE; Achille M. TRIACCA (Orgs.), Eucaristia in Dicionário de Liturgia, 1992, p. 414.

[7] RATIZINGER, J. Art. Cit. P. 74, apud Marie-Thérèse NADEAU, Eucaristia: Memória e presença do Senhor, 2005, p. 48.

[8] Cf. Marie-Thérèse NADEAU, Eucaristia: Memória e presença do Senhor, 2005, p. 52.

[9] Urbano ZILLES, Op. Cit., p. 274.

[10] TOMÁS de Aquino. Somme Théologique. Paris, Cerf, 1986. IIIa, q. 60, a. 3 [Ed. Bras.: Suma teológica. São Paulo, Loyola, 2002.] apud Marie-Thérèse NADEAU, Eucaristia: Memória e presença do Senhor, 2005, p. 52.

[11] Cf. Marie-Thérèse NADEAU, op. cit., p. 52.

[12] MND 15.

[13] Cf. Luiz Antônio Reis COSTA, Da mesa de peregrinos ao banquete do reino: a dimensão escatológica da eucaristia no Missal Romano de Paulo VI: análise teológico-litúrgica de textos seletos, disponível em: < http://www.faculdadejesuita.edu.br/documentos/031111-Luiz%20Antonio%20R%20Costa.pdf> acesso em 07 de setembro de 2015, p. 10.

[14] MISSAL Romano, Oração Eucaristica II.

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.