Frases de Santos

Homilia › 24/10/2020

Amar de fato – XXX Domingo do Tempo Comum

Ano A

1ª Leitura Ex 22,20-26 / Salmo Sl 17 / 2ª Leitura 1Ts 1,5c-10

Estamos nos aproximando do final do Ano Litúrgico, ano da Igreja. Estamos já no trigésimo Domingo comum. Mais três, e encerraremos o ano litúrgico, com a Solenidade de Cristo-Rei. O tempo passa, a vida passa, a história passa… Elevemos o olhar e o coração para Aquele que não passa, Aquele que é o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim da nossa existência, o Cristo, nosso Deus!

No Domingo passado, o Senhor Jesus ordenava: “Dai a Deus o que é de Deus!” De Deus é tudo, ainda que tudo pareça nosso: “Tudo pertence a vós: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes e as futuras. Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor 3,21-23). Esta é, precisamente, a dificuldade, a miopia ou, mais ainda, a cegueira, o triste pecado do mundo atual: não perceber Deus, não enxergar com a razão, com o afeto, com o coração que Deus é o Tudo, o Substrato, o Sentido da nossa existência. Sem ele, nada tem sentido perene, nada tem valor duradouro, nada tem valor absoluto… nem a vida humana, que somente pode ser respeitada de modo absoluto quando é compreendida como imagem de Deus.

Neste domingo a liturgia da palavra focaliza o grande mandamento do amor a Deus e ao próximo. Na primeira leitura encontramos um grupo de leis referentes aos deveres para com o próximo necessitado: os estrangeiros, as viúvas, os órfãos, os pobres, os devedores. (Cf. Ex 22,20-26)

Dois são os motivos inspiradores destas prescrições: “guarda-te de jamais fazer a outrem o que não quererias que te fosse feito” (Tb 4,15) e, ao contrário: Ama o próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). E isso não por simples sentimento humanitário, mas por causa de Deus, que particular cuidado com os atribulados, escuta seus clamores e é “compassivo” com eles (Ex 22,26).

Mesmo no Antigo Testamento, o amor ao próximo é visto em relação a Deus, como respeito a sua lei e como reflexo de seu amor para com os homens. Mas no Novo Testamento, é iluminado e aperfeiçoado pela doutrina de Jesus, como se pode ver no Evangelho de hoje.

Como ouvimos no Evangelho o contesto se insere em mais uma controvérsia entre Jesus e o grupo dos fariseus. Mais uma vez, querem testar os conhecimentos de Jesus sobre a Lei e um deles pergunta qual é o maior mandamento da Lei (v. 36). Este questionamento não tem como objetivo conhecer a verdade, e sim colocar Jesus à prova, para experimentá-lo (cf. v. 35). Jesus não hesita e responde imediatamente: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento” (v. 37-39). Na sua resposta, Jesus cita o Shemá, a oração que o israelita recita várias vezes ao dia (cf. Dt 6,4-9; Nm 15,37-41): a proclamação do amor íntegro e total devido a Deus, como o único Senhor.

Com efeito, a exigência principal para cada um de nós é que Deus esteja presente na nossa vida. Como diz a Escritura, Ele deve imbuir todas as camadas do nosso ser e enchê-las completamente: o coração deve conhecê-lo e deixar-se tocar por Ele; e assim também a alma, as energias da nossa vontade e das nossas escolhas, bem como a inteligência e o pensamento, para que possamos dizer como São Paulo: “Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

Jesus ainda acrescenta algo sobre o segundo mandamento que, na realidade, não tinha sido perguntado pelo doutor da lei: “O segundo é semelhante ao primeiro: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (v. 39). O aspecto surpreendente da resposta de Jesus consiste no fato de que Ele estabelece uma relação de semelhança entre o primeiro e o segundo mandamento, definido também esta vez com uma fórmula bíblica tirada do código levítico de santidade (cf. Lv 19, 18).

A resposta de Jesus, portanto, supera o horizonte estreito da pergunta. O importante, na perspectiva de Jesus, não é definir qual o mandamento mais importante, mas encontrar a raiz de todos os mandamentos. E, na perspectiva de Jesus, essa raiz gira à volta de dois mandamentos: o amor a Deus e o amor ao próximo.

A originalidade deste ensinamento está, por um lado, no fato de Jesus aproximar um mandamento do outro, pondo-os em perfeito paralelo e, por outro, no fato de Jesus simplificar e concentrar toda a revelação de Deus nestes dois mandamentos. Deste modo, Jesus oferece a cada homem o critério fundamental sobre o qual devemos delinear a nossa própria vida.

Amar a Deus de todo coração significa plena disponibilidade ao seu querer, dedicação incondicional ao seu serviço. E justamente em vista do querer de Deus, e para dar forma concreta ao serviço divino, havemos de amar o próximo, a ele nos dando com generosidade. Claramente o prova o exemplo de Jesus: cumpre a vontade do Pai pondo-se a serviço dos homens e imolando-se para salva-los. A obra redentora de Cristo é a expressão de seu amor ao pai e, ao mesmo tempo, aos homens.

O Evangelho – como todo o Novo Testamento e a reta e sadia Tradição da Igreja – desconhece uma relação com Deus baseada numa fé sem obras que nasçam do amor. Basta recordar o belíssimo hino ao amor, da Primeira Carta aos Coríntios: “Ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse a caridade, eu nada seria” (13,2). Que ninguém se iluda com um vazio discurso sobre uma fé vã sem as obras que dela nascem e a revelam! A fé sem amor a Deus e ao próximo, aquela fé que gosta de dizer “estou salvo” de se compraz em decretar a condenação dos outros é uma fé inútil, vazia, falsa e morta!

O cristão precisa trilhar o mesmo caminho de Jesus. Impossível, pois, lhe é separar o amor ao próximo do amor a Deus, sob pena de reduzir aquele a pura filantropia, e, este, a um amor ideal, platônico. A síntese perfeita é indicada por São João: “Se alguém disser: ‘Eu amo a Deus’, e odiar seu irmão, é um mentiroso. Pois, quem não ama a seu irmão, é um mentiroso. Pois, quem não ama a seu irmão a quem vê, como pode amar a Deus a quem não vê? E recebemos de este mandamento: ‘Quem ama a Deus ame também a seu irmão’” (1Jo 4,20-21). É preciso reconhecer que Deus está presente no irmão que sofre e este amor deve ser manifestado no auxílio que podemos dar, sobretudo, para aqueles que se encontram em maior fragilidade.

Que a escuta renovada da Palavra de Deus possa fazer brotar em nós uma autêntica renovação na fé e na santidade de vida. Peçamos, uma vez mais, a materna intercessão da Virgem Maria, que nas Bodas de Caná exortou a fazer tudo quanto Jesus dissesse (cf. Jo 2,5), para que saibamos reconhecer na nossa vida a primazia da Palavra de Deus, que é também um alimento para a fé, a esperança e a caridade, que são caminhos permanentes de salvação para todos.

Referencias

MADALENA, Gabriel de Sta. Mª. Intimidade Divina. Edições Loyola.

presbiteros.org.br

1 Comentário para “Amar de fato – XXX Domingo do Tempo Comum”

  1. Marcelo Luiz Izza disse:

    Execelente.

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