Frases de Santos

Formação › 14/12/2020

A Liturgia e a atualização do Mistério Pascal

O Mistério Pascal tem uma grande importância na liturgia e está no centro de toda teologia sacramental, por isso a celebração do Tríduo Pascal e o Domingo tem um maior destaque, pois, este mistério é o “acontecimento salvífico da morte e ressurreição de Cristo atualizado de modo sacramental na liturgia”[1].  O Concilio Vaticano II também afirma que o Mistério Pascal está no centro de toda celebração litúrgica onde “A liturgia dos sacramentos e dos sacramentais coloca o ser humano em relação com o Mistério Pascal da morte e ressurreição de Cristo em quase todas as ocasiões da vida. Do Mistério Pascal derivam a graça e a força com que se santificam os fiéis bem-disposto. Todo uso honesto das coisas materiais pode assim ser orientado para a santificação das pessoas e para o louvor de Deus”[2]. A páscoa de Jesus, sua paixão, morte, ressurreição e ascensão, é o ponto culminante de nossa fé. Ela é realmente o centro de toda a história da salvação[3].

Em sua raiz original “a palavra grega ‘litourgia’ quer dizer serviço em favor do povo. Pela liturgia, a Igreja atualiza o mistério pascal do Cristo, para a salvação do mundo, e louva a Deus em nome de toda a humanidade. A liturgia é, sem dúvida, o momento culminante da vida da Igreja, da atuação do Espírito Santo e da presença do Cristo Glorioso”[4]. Portanto, a liturgia é a salvação celebrada e vivida. Os estudos da teologia litúrgica sempre parte do ato da celebração litúrgica, que é a ação salvífica, pois, a liturgia é a “teologia primeira”, porque é o local que se vive o mistério da salvação cristã[5]. Quando adentramos na história da Igreja, podemos perceber que na patrística existe uma “dupla ligação entre teologia e liturgia. Na celebração litúrgica nasce a homilia, e da homilia a exegese dos textos bíblicos. A liturgia, como “locus theologicus” e teologia primeira, discurso dirigido a Deus, alimenta, expressa e faz-se norma da fé e de sua intelecção. A teologia, por sua vez, desemboca na expressão de louvor e adesão a Deus, especialmente na liturgia”[6]. A Igreja do oriente também considera a Liturgia como teologia primeira.

Na liturgia é exercida a obra de nossa redenção, ou seja, é atualizada a obra de nossa salvação[7]. Portanto, precisamos levar em conta todo contexto da história salvífica, pois, a “salvação é uma realidade que foi o primeiro mistério escondido no Pai, anunciado depois pelos profetas, cumprindo em Cristo e dado a conhecer pela pregação apostólica (cf. Rm 16,25-27; Ef 3,3-12; 1Tm 3,16)”[8].

Com o acontecimento de pentecostes os apóstolos, que antes estavam com medo e escondidos, agora cheios do Espírito Santo começaram a anunciar a salvação a todos (cf At 2). Com derramamento do Espírito Santo no dia de pentecostes se inaugura o tempo da Igreja, onde se dá uma nova etapa em relação a realização da economia da salvação.

Assim como Cristo foi enviado pelo Pai, assim também Ele enviou os Apóstolos, cheios do Espírito Santo, não só para que, pregando o Evangelho a toda a criatura, anunciassem que o Filho de Deus, pela sua morte e ressurreição, nos libertara do poder de Satanás e da morte e nos introduzira no Reino do Pai, mas também para que realizassem a obra de salvação que anunciavam, mediante o sacrifício e os sacramentos, à volta dos quais gira toda a vida litúrgica[9].

A Igreja celebra o Mistério Pascal de Cristo por meio do memorial na Liturgia, atualiza a salvação que Cristo nos deu. “Sendo a Igreja o fruto do sacrifício de Cristo, a Liturgia é sempre a celebração do Mistério Pascal de Cristo, glorificação de Deus e santificação do homem pelo poder do Espírito Santo”[10]. A liturgia não é somente um recordar de acontecimentos que nos salvaram, também é um atualizar, ou seja, na liturgia não se repete o Mistério Pascal de Cristo, o que se repete são as celebrações, em cada uma das celebrações é o próprio Espírito Santo que atualiza o único mistério[11].

O mistério de Cristo se faz presente no mistério do culto, pois, a liturgia é a realização do mistério de Cristo, é a continuação da presença e da ação de Cristo no mundo. Quando participamos da liturgia, estamos participando tanto de modo material-visível, no culto, mas também participamos de modo espiritual- invisível da ação redentora de Cristo presente no culto (liturgia)[12].

O Mistério Pascal de Jesus, Morte e ressurreição, é o núcleo de toda história salvífica, mas, também é o centro do mistério litúrgico, que é “o centro da história sagrada da salvação ou realização da obra da redenção”[13]. Existe uma relação entre Mistério Pascal, liturgia e Igreja. Na liturgia está contido toda riqueza do Mistério Pascal de Jesus.

Em primeiro lugar, celebra-se o plano eterno de Deus, que determinou a nossa salvação do pecado e da morte; em segundo lugar, celebra-se o conjunto de intervenções históricas de Deus no povo eleito para ser afastado da idolatria e para ser instruído acerca do caminho do verdadeiro culto em espírito e em verdade; e em terceiro lugar, a liturgia celebra, ritual e simbolicamente, a memória da aliança de Deus com o seu povo de Israel e a aliança nova e definitiva, estabelecida em Cristo, Senhor e Salvador. Esse é o rito memorial, figura do Antigo Testamento e plenitude no Novo Testamento, caracterizado pela presença sacramental do Mistério Pascal[14].

Santo Agostino na epístola a Januário buscou nos mostrar o caráter sacramental da celebração pascal.

sacramentum na celebração quando a comemoração daquilo que se passou se faz de tal sorte que se compreenda que é também significada alguma coisa que é santamente recebida. Assim fazemos a Páscoa de modo que não somente lembremos da memória do que se passou, quer dizer, que Cristo morreu e ressuscitou, mas que não omitamos quando a esse ponto tudo o que é atestado para significar o sacramentum[15].

O Mistério Pascal de Cristo é o centro de toda Liturgia da Igreja, presente na vida da Igreja por meio da liturgia[16].

 

 

Por: Pe. Leandro Paulo do Couto

 

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[1] Ricardo Pascual DOTRO; Gerardo Garcia, Mistério Pascal, in Dicionário de Liturgia, 2006, p. 110.

[2] SC 61.

[3] Cf. SC 5, 6.

[4] Cf. João de Deus GÓIS, Breve curso de Liturgia, 2005, p. 5-6.

[5] Cf. L. MALDONADO; P. FERNÁNDEZ, A celebração Litúrgica: Fenomenologia e teologia da Celebração, in Dionísio BOROBIO, A Celebração na Igreja: Liturgia e sacramentologia fundamental, 2002, p. 236. (v. 1).

[6] J. B. LIBANIO; Afonso MURAD, Introdução a Teologia: perfil, enfoques, tarefas, 2007, p. 121.

[7] Cf. SC 2.

[8] Julián Lopez MARTÍN, op. cit., p. 71-72.

[9] SC 5.

[10] CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, A Liturgia Romana e a Inculturação, 1994, p. 21.

[11] Cf. CAT, n. 1104.

[12] Cf. Frei Alberto BECKHÄUSER, Celebrar a Vida Cristã: Formação Litúrgica para agentes de Pastoral, Equipes de Liturgia e grupos de Reflexão, 1984, p. 33.

[13] L. MALDONADO; P. FERNÁNDEZ, A celebração Litúrgica: Fenomenologia e teologia da Celebração, in Dionísio BOROBIO, A Celebração na Igreja: Liturgia e sacramentologia fundamental, 2002, p. 248. (v. 1).

[14] Ibidem.

[15] Epist. 55 ad Ianuarium 1-2, CSEL 33, p. 170., apud A. G. MARTIMORT, Princípios da Liturgia, A Igreja em Oração, 1988, p. 229.

[16] Cf. CELAM, Manual de Liturgia: a celebração do Mistério pascal, fundamentos e elementos constitutivos, 2011, p. 53.

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