Frases de Santos

Formação › 29/06/2020

A Encarnação: auto comunicação de Deus

 

 

Deus enviou seu filho Jesus ao mundo, por amor a nós homens. Este é um fato que podemos tocar nos relatos do Novo Testamento, principalmente nos Escritos Joaninos. Logo no início o Evangelho Segundo João, traz o tema da encarnação do Verbo (Cf. Jo 1,14), por amor a nós Deus Pai enviou seu Filho muito amado para nos salvar da escravidão do pecado. No Primeiro Testamento Deus se fez conhecer por meio de sua Palavra anunciada pelos profetas, no Novo Testamento por meio da encarnação[1] de seu Filho, ou seja, Jesus nos revela Deus como Pai[2]. Ele se faz presente na vida de seu povo, Deus se fez carne e habitou entre nós.

No Evangelho de São João (1,1) encontramos o relato sobre o Verbo que já existe junto de Deus desde a eternidade. O Verbo, ou seja, esta palavra não estava congelada ou até mesmo petrificada, pelo contrário, no Primeiro Testamento ele falou por meio de seus profetas, mas na plenitude dos tempos para realizar sua missão, ela se fez carne, veio habitar entre nós, sendo Deus, se fez homem. “Ora, mesmo precária, a ‘carne’ se presta à práxis salvífica (cf. Jo 6,51). A em-carna-ção de Jesus nos salva, porque diz respeito não somente ao início, mas sobretudo à consumação de sua vida. Não só o Natal, mas sobretudo a Sexta-Feira Santa é festa da Encarnação. O presépio e a cruz são da mesma madeira! A Palavra que é da eternidade vai morrer, mas essa morte é mistério de vida, pois a Palavra é vida[3]. A Encarnação na visão da Igreja é o fato do Filho de Deus se fazer carne, ou seja, o Filho de Deus assumiu uma natureza humana para realizar nela a salvação de todos[4]. Ao se fazer carne o Filho de Deus também assumiu uma alma racional humana.

Esta alma humana que o Filho de Deus assumiu é dotada de um conhecimento humano. Enquanto tal, este não podia ser em si ilimitado: exercia-se nas condições históricas de sua existência no espaço e no tempo. Por isso o Filho do Deus, ao tornar-se homem, pôde aceitar “crescer em sabedoria, em estatura e em graça” (Lc 2,52) e também informar-se sobre aquilo que na condição humana se deve aprender de maneira experimental. Isto correspondia à realidade de seu rebaixamento voluntário na “condição de Escravo”[5].

A encarnação do filho de Deus, Jesus, é a realização criatural do ser-Filho e ao mesmo tempo revelação do verdadeiro destino do ser humano. “A encarnação do Filho de Deus é o início da humanização do ser humano: Deus se faz o ser humano que nos torna mais humanos”[6]. Deus se fez Carne, Jesus se encarnou no seio da Virgem Maria por obra do Espírito Santo, de modo sobrenatural (Cf. Lc 1,26ss).

O Teólogo René LATOURELLE[7] em seus escritos sobre a teologia da revelação afirma que “se o Filho se encarna para revelar, devemos afirmar que todos os recursos da natureza humana serão assumidos por ele para servirem de expressão à sua Pessoa de Filho de Deus. Portanto, as palavras do Cristo, seu ensinamento e também suas ações, suas atitudes, seu comportamento, toda sua existência humana será perfeitamente utilizada para revelar-nos as profundezas do mistério divino”[8]. A revelação segue duas linhas de manifestações, uma por palavras e outra por meio de ações, ou seja, por palavras e gestos, pois a palavra vivenciada nos dá um novo valor de vida[9].

Ao mesmo tempo em que Cristo é Deus que revela e Deus revelado, também é sinal de salvação, ou seja, Ele também é resposta da revelação. “O Cristo é Deus que revela, pois, o Verbo de Deus, o Filho, Jesus Cristo, é tudo uma só realidade… O Cristo é causa e autor da revelação, pois a revelação origina-se tanto do Cristo como do Pai e do Espírito… Deus, Verbo de Deus, Palavra de Deus, Filho único do Pai, ele nasceu para revelar, para dar ao mundo a plenitude da revelação[10]”. Jesus Cristo ao longo de sua vida revela-nos Deus Pai e, ao mesmo tempo, Ele se mostra como Deus revelado ao anunciar a Deus como Pai, portanto, Jesus é o Deus que Fala e o Deus do qual se fala, ao mesmo tempo que Cristo anuncia o mistério, Ele é o mistério em pessoa. Sendo o Verbo encarnado, Ele é a expressão que revela[11].

Quando adentramos nos relatos sobre a vida de Jesus, podemos perceber que Ele Jesus sempre cumpriu a vontade do Pai. Jesus inaugurou o Reino dos céus aqui na terra e nos revelou o mistério de Deus[12]. A Dei Verbum, nos traz o fato de que “Jesus Cristo, portanto, Verbo feito carne, enviado como ‘homem aos homens’, ‘profere as palavras de Deus’ (Cf. Jo 3,34)”[13]. Ao mesmo tempo que Jesus anuncia Deus Pai, ele se auto revela como o Filho muito amado do Pai. Podemos concluir que Deus se fez carne por amor a nós homens.

 

Pe. Leandro Couto

Comunidade Canção Nova

 

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[1] Em relação as controvérsias sobre as duas naturezas de Cristo, o Teólogo Bruno Forte afirma que “A unidade entre o humano e o divino em Jesus Cristo é alicerçado, em Calcedônia, sobre a unidade da Pessoa divina, ‘concorrendo (cada natureza) para uma única pessoa (prósopon) e para uma única hipóstase (hipóstasis)’, a do único e mesmo Filho Unigênito Deus Verbo, o Senhor Jesus Cristo. O concilio não deu explicação conceitual dos termos empregados, mas do contexto e da intenção anti-herética (contra o “monofisismo” de Eutíquio e as posições atribuídas a Nestório) se deduz claramente que eles indicam a unidade sujeito divino que, consubstancial ao Pai e, portanto, de natureza divina, assume a natureza humana, unindo-a a si sem mistura com o divino ou absorção por ele, em nível de profundidade ontológica completamente irredutível a simples convergência moral. Jesus é o Filho de Deus, Deus ele mesmo, e é – o mesmo Jesus – o homem conhecido e testemunhado pelos apóstolos, o profeta galileu morto no lenho da vergonha e ressuscitado pelo Pai no Terceiro Dia”. (Bruno FORTE, Teologia da História: ensaios sobre a Revelação, início e a consumação, São Paulo, 2009, p. 114).

[2] Luiz F. LADARIA, O Deus Vivo e Verdadeiro: O mistério da Trindade, 2005, p. 58.

[3] Johan KONINGS, Evangelho segundo João: Amor e fidelidade, 2005, p. 80.

[4] Cf. CAT n. 461.

[5] CAT n. 472.

[6] Hons KESSLER, Cristologia, in SCHNEIDER, Theodor, Manual de Dogmática, 2001, 2012, p. 395. (v. 1).

[7] René Lauretele, Nasceu em Montreal em 1918. Ele é membro da Companhia de Jesus. PhD em História pela Universidade de Montreal e em Teologia pela Universidade Gregoriana. Desde 1959, ele atuou como professor de teologia na Universidade Gregoriana de Roma. Sua pesquisa centrou-se no campo da teologia fundamental.

[8] René LATOURELLE, Teologia da Revelação, 1972, p. 477.

[9] Cf. Idem, p. 478.

[10] Idem, p.  483.

[11] Cf. Idem, p. 483-484.

[12] Cf. LG 3.

[13] LG 4.

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