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Formação › 10/09/2020

A Criação como origem permanente da Salvação, Pate II

Ao longo da história do povo de Israel podemos notar que a proximidade de Deus desempenhou um papel fundamental. Podemos ver de forma mais intensa nos textos proféticos, principalmente no Dêutero-Isaías, onde encontramos um “estreito entrelaçamento de esperança de salvação e fé na criação … que, na situação de desgraça no exílio, buscava nova esperança em sua fé na intervenção salvífica de Javé que, como criador, tem as rédeas da história nas mãos[1]”. Ainda neste contexto LADARIA afirma que “a fé no Deus libertador traz o pleno reconhecimento de Deus criador e, ao mesmo tempo, somente Ele tem condição de garantir a libertação plena e definitiva, uma vez que não só é Deus de Israel, mas também o Deus do Mundo”[2]. Pois Deus é o criador de todas as coisas.

A fé em Deus nasce da experiência de salvação vivido no êxodo do Egito. Esta experiência nos leva a compreender que a ação criadora de Deus é também experiência salvífica[3]. “Israel reconheceu Deus como seu salvador antes de conhecê-lo como seu criador. Para ele, a experiência das intervenções salvíficas de Deus foi anterior; a partir dela nasceu a fé no Deus único, criador do céu e da terra. A própria criação foi entendida como ato salvífico fundamental; a ideia do Deus criador estava contida na outra, mais ampla, do Deus redentor[4]”. Podemos concluir que a salvação que foi experimentada na história permite conhecer a ação salvífica de Deus em sua criação e por meio dela.

O nascimento do povo de Israel se dá a partir do êxodo, pois, ao nascer como povo, nascem como povo sacerdotal, formado e chamado para escutar a voz de Deus, para honrá-lo e servi-lo.  Ao saírem do Egito e passar pelo mar vermelho e quando estavam no deserto Deus quis fazer uma aliança com seu povo (Cf.  Ex 19,3-6). Deus só exige que o povo o escute e guarde sua aliança, como consequência da fidelidade do povo, eles se tornariam uma nação santa, consagrada ao serviço e ao culto do senhor[5].

A história da salvação no Primeiro Testamento está intimamente ligada ao mistério pascal, prefigurado na libertação do povo Israelita do julgo da escravidão no Egito[6]. Podemos ver de forma bem clara no capítulo 12 de Êxodo que Deus instituiu a celebração da Páscoa para que o povo lembrasse do dia em que Javé se manifestou de forma vitoriosa libertando seu povo da escravidão do Egito (Cf. Ex 12,1-14).

Segundo MÜLLER, é importante observar que: “A Páscoa coincide com a libertação dos Israelitas: ela é um ‘memorial do êxodo’, maior acontecimento da História…; a libertação dos Israelitas é misteriosamente ligada à morte de um cordeiro, no qual ‘não deveria ser quebrado nenhum osso’, e cujo sangue, colocado nas ombreiras das portas, preservou da morte os primogênitos dos Israelitas”[7]. A partir deste fato a festa da Páscoa judaica é celebrada anualmente comemorando a passagem de Deus que libertou o seu povo. Também com o decorrer do tempo por meio da lembrança da libertação, a Páscoa também se tornou a festa da esperança, esperança que naquela noite o “Messias Redentor” virá[8].

A ação libertadora de Deus, na vida dos hebreus que estavam escravos no Egito, é tida como a ação libertadora prototípica de Javé[9].  Portanto, podemos afirmar que “a redenção se realiza no palco da história. Israel narra sua história como área central da experiência de Javé e de sua atuação redentora. Neste contexto, redenção significa libertação em sentido real, corporal, social e econômico; portanto, ela diz respeito não só à interioridade ou – inicialmente ela nem tem sentido – ao além”[10].

Ao longo da história de salvação do povo de Israel temos diversas narrativas bíblicas com canções que falam de várias manifestações salvíficas de Deus e muitas delas por meio de mediadores humanos como por exemplo: Moisés, Mirian, Débora, Gedeão e outros (Cf. Jz 5,2-31; 3,9s.;4,3-10; 1Sm 11)[11].

O memorial (Hebraico le-zikkaron, grego eis mnemosynon), o conteúdo e o significado da celebração pascal e de todos os seus elementos rituais estão muito bem resumidos nas palavras da instituição contidas em Êxodo 12. Na celebração da páscoa não só Israel, mas, sobretudo o Senhor em presença do memorial se lembra do seu povo, ao se lembrar, se torna presente e atualiza a sua salvação[12].

Podemos perceber que a páscoa está no centro de toda história do povo de Israel e, por isso, o fazer memória desta salvação, ou seja, o memorial pascal se tornou o conteúdo de toda as ações litúrgicas que celebravam esta história de salvação. A páscoa como centro de toda história da salvação se tornou o centro de toda a vida litúrgica do povo de Deus e também foi o fundamento de toda legislação moral e social de Israel[13].

 

Padre Leandro Paulo do Couto

Comunidade Canção Nova

 

Leia Também:

4º – A Criação como origem permanente da Salvação, Pate I

 

3º – Homem e Mulher os Criou (Gn 1,27)

 

2º – Manifestação do amor de Deus por meio da criação

 

1º – Liturgia: Mistério Pascal na história da salvação

 

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[1] Dorothea SATTER; Theodor SCHNEIDER, Doutrina da Criação, in Theodor SCHNEIDER, Manual de Dogmática, 2001, p. 144. (v. 1).

[2] Luis F. LADARIA, Introdução à Antropologia, p.38

[3] Cf. Dorothea SATTER; Theodor SCHNEIDER, Doutrina da Criação, in Theodor SCHNEIDER, Manual de Dogmática, 2001, p.144. (v. 1).

[4] François-Xavier DURRWELL, op. cit., p. 114.

[5] Gregório LUTZ, Celebrar em Espirito e Verdade, 1997, p. 9.

[6] Cf. Oscar MÜLLER, O Mistério da Páscoa, in Guilherme BARAÜNA (org.), op. cit., p. 356.

[7] Idem, p. 357-358.

[8] Cf. Idem, p. 58.

[9] Cf. Hans KASSLER, Cristologia, in. Teodor SHNEIDER (org.), Manual de Dogmatica I, 4 ed,  2012, p.223.

[10] Ibidem.

[11] Cf. Ibidem.

[12] CF. Domenico SARTORE; Achille M. TRIACCA, Mistério Pascal, in Dicionario de Liturgia, 1992. P. 775.

[13] Cf. Domenico SARTORE; Achille M. TRIACCA, Mistério Pascal, in Dicionario de Liturgia, 1992, p. 779.

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