Frases de Santos

Formação › 10/09/2020

A Criação como origem permanente da Salvação, Pate I

A criação é onde se desenvolve a história do amor entre Deus e sua criatura, por conseguinte, o movente de tudo é a salvação do homem[1].

Quando pensamos na criação como origem permanente da salvação, do ponto de vista da teologia, não podemos falar da criação do mundo como algo neutro e sem relação com a história salvífica onde Cristo é o ponto mais alto. Portanto, a criação já é mistério de Salvação. “A criação é fundamento de ‘todos os desígnios salvíficos de Deus’, ‘o começo da história da Salvação’, que culmina em Cristo. Inversamente, o mistério de Cristo é a luz decisiva sobre o mistério da criação; ele revela o fim em vista do qual, ‘no princípio, Deus criou o céu e a terra’ (Gn 1,1): desde o início, Deus Tinha em vista a Glória da nova criação em Cristo”[2].

SANTO IRINEU ao falar da criação do homem ele afirma que “Deus, dede o começo plasmou o homem em vista de seus dons. Escolheu os patriarcas, em vista de sua salvação”[3]. Ao falarmos de Criação como origem permanente da salvação também precisamos compreender que o tema da “páscoa” está no centro da história da salvação, pois, “a pascoa é a denominação hebraica dada à revelação e à realização (figurativo-profética) do plano de salvação, eternamente, presente em Deus. Com efeito, é a intervenção libertadora de Deus, na qual começa a revelar-se e a realizar-se o seu designo de amor para com os homens, e que até aquele momento permanecera no estado de ‘promessa’”[4]. Por amor, Deus intervém na história de seu povo para salvá-los, DE LA PENA, afirma que:

A ideia bíblica de “criação” se expressa com o verbo barra, que denota não a ação de dar princípios à realidade, mas também a ação restauradora (re-criadora) e consumadora desta mesma realidade. Em outras palavras, Deus cria quando: a) chama à existência os seres que não existem; b) sustenta as criaturas na existência, escolhe um grupo humano para que se converta em seu povo e refaz a criação degradada pelo pecado; c) conduz essa mesma criação redimida à plenitude do ser e de sentido que é a salvação.

Em cada uma dessas acepções da ideia de criação, um atributo divino se destaca: o amor. Deus tanto cria como salva. Ou melhor: Deus cria para salvar. Isso significa que a ação criadora põe às claras, mais que a onipotência, a bondade irrestrita, a generosidade ilimitada e o amor gratuito de um Deus que atua movido exclusivamente por sua vontade de comunicar-se[5].

Deus é infinitamente bom e criou o homem a sua imagem e semelhança. Portanto todas as suas obras são boas, porém ninguém pode escapar da experiência do sofrimento[6].  Ao aprofundarmos os relatos bíblicos sobre o pecado humano concluímos que o pecado é, simultaneamente, contra Deus e contra os semelhantes. Na narrativa javista “a natureza do pecado consiste numa perversão da boa ordem da criação segundo a vontade de Deus e, desse modo, numa ruptura da comunhão entre Deus e o ser humano e entre os seres humanos e a criação não humana. A ruptura da comunhão e da aliança tem consequências dolorosas para toda criação”[7]. Deus não desiste da humanidade, pois podemos perceber que ao lado da história da criação, existe uma história de salvação. Deus está disposto a perdoar o homem, por amor. Pois, podemos perceber logo no início do livro do Gênesis alguns sinais sobre o mistério pascal, o mistério da salvação. Tanto os judeus quanto os cristãos têm como criador e salvador de todos os homens Javé, o Deus de Israel[8]. Segundo Oscar MÜLLER em Genesis 3 temos o primeiro anúncio do mistério pascal[9]. Müller ainda afirma que:

O demônio (serpente) conseguira atrair à sua amizade os nossos primeiros pais, levando-os a pecar, fazendo-os perder a vida sobrenatural e sujeitando-os à sentença condenadora de Deus: … antes mesmo de condenar o homem ao castigo ameaçado, Deus anunciou ao demônio a futura inimizade de uma mulher e de seu descendente, inimizade colocada pelo próprio Deus (“porei inimizade”) e que comportaria para o demônio a total derrota (“te esmagará a cabeça”). A mulher e seu filho aparecem como vencedores sobre o demônio, sobre o pecado e suas consequências, de modo que aos homens será restituída a amizade com Deus e a vida eterna feliz, embora não sejam eximidos da necessidade de morrer (“morderá no calcanhar”). Já no paraíso há, portanto, um anúncio de morte e ressureição[10].

No livro do Êxodo, de forma mais nítida em Ex 15, temos o canto da vitória, onde podemos notar alguns sinais onde os israelitas proferiram um cântico triunfal, com o qual eles celebraram o acontecimento mais importante da história do povo de Israel, a saída do Egito. Ainda no livro do êxodo temos o relato de uma intervenção libertadora de Deus de forma mais intensa, onde recebe o nome de Páscoa. “A ‘libertação’ do Egito tem, com efeito, o objetivo e o significado de uma ‘vocação’ de Israel deixar o culto idolátrico e a abrir-se à ‘revelação’ do verdadeiro Deus (Ex 3,13-15) de maneira que só ele seja ‘adorado’ (Ex 3,12.15.18; 4,23; 5,1.3.8;7,16; 8,4; etc.)”[11].

Quando afirmamos que a Páscoa é o cumprimento ou o centro da história da salvação, afirmamos que a Páscoa é o momento ritual daquele evento, seja em nível simbólico no Primeiro Testamento ou em nível real-definitivo no Novo Testamento[12].

Continua…

 

Padre Leandro Paulo do Couto

Comunidade Canção Nova

 

Leia Também:

 

3º – Homem e Mulher os Criou (Gn 1,27)

 

2º – Manifestação do amor de Deus por meio da criação

 

1º – Liturgia: Mistério Pascal na história da salvação

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[1] VD 9.

[2] CAT n. 280.

[3] Santo IRINEU, A Criação do Homem in. Cirilo Folch GOMES, Antologia dos Santos Padres, 1979, p. 126.

[4] B. NEUNHEUSER; S. MARSILI; M. AUGÉ; R. CIVIL, A Liturgia: Momento Histórico da Salvação, 1986, p. 117 – 118. (Anámnesis 1).

[5]  Juan Luiz Ruiz de La PEÑA, Criação, Graça, Salvação, 1998, p. 9-10

[6] Cf. CAT n. 385.

[7] Dorothea SATTLER; Theodor SCHNEIDER, Doutrina da Criação, in Theodor SCHNEIDER, Manual de Dogmática, 2001, p. 154.  (v. 1).

[8] Cf. Idem, p.119.

[9] Cf. Oscar MÜLLER, O Mistério da Páscoa, in Guilherme BARAÜNA (org.), A sagrada Liturgia Renovada pelo Concilio, 1964, p.356.

[10] Ibidem.

[11] B. NEUNHEUSER; S. MARSILI; M. AUGÉ; R. CIVIL, op. cit., p.118.

[12] Cf. Idem, p. 119.

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